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sábado, 14 de junho de 2008

Survival International: Ong da Picaretagem Indigenista

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Autor: Eliel dos Santos
Categoria: Artigos Completos

Está aberto no Brasil o "Festival DA Picaretagem", com participantes nacionais e internacionais. Em cena, FUNAI E SURVIVAL, duas instituiçôes que vem provando ao Brasil o verdadeiro significado da palavra "PICARETAGEM GEOPOLÍTICA". Para entendermos o processo de picaretagem levado a efeito pela Funai e Survival International (sobrevivência), é preciso conhecer a história de certas fraudes criada por esta ONG inglesa, em conluio com a Funai. Em meados da década de 60 o então princípe Phillip (Casa de Windsor) arquitetou o plano estratégico para a criação da Reserva Ianomâmi, sendo enviada para terras brasileiras diversas missôes, as principais "Robin Hambury-Tenison", encarregadas pela coroa inglesa de encontrar tribos indígenas situadas sobre os eixos naturais de integração do continente ibero-americano. O objetivo era manipular tais tribos para impedir a realização de obras de infra-estruturas que concretizassem tais conexôes. Em seu livro "Words a Part" (Mundos a Parte), "Hambury-Tenison" apresenta um mapa no qual mostra, precisamente, essa preocupação, e revela que a importância estratégica de seus roteiros lhe foi indicada, pessoalmente, pelo Princípe Phillip. Foi então que a picaretagem chegou ao seu mais alto nível: em 1969 foi criada a ong SURVIVAL INTERNATIONAL, encarregada da criação da reserva Ianomâmi. E pasmem: a reserva foi criada com uma área maior que boa parte dos países europeus (com milhôes de habitantes), sendo que os indíos denominados falsamente de Ianomâmis (até a etnia é uma fraude, pois nunca se teve notícia de povos com esta denominação) eram somente 5000. Fica evidente a falta de governo brasileiro e a picaretagem da ONG SURVIVAL, ao criar uma área imensa, riquíssima em jazidas minerais estratégicos, em área de fronteira. Se não bastasse a ingerência de décadas em assuntos brasileiros, fraudando laudos antropológicos, em nome de interesses escusos da coroa inglesa, tal ONG voltou a atuar de maneira suspeita na semana que passou: as fotos de tribos isoladas no Acre, na fronteira peruana ( divulgadas em 28 de maio de 2008). Para forçar o STF a julgar ( favoravelmente à política indigenista inglesa) ação no caso da reserva Raposa e Serra do Sol, descobre-se (logo agora?) de maneira suspeita, uma tribo primitiva em area de fronteira. Se o caso estivesse sendo divulgado somente pela ONG PICARETA SURVIVAL, daríamos um desconto, apesar de que em nossas pobres narinas brasileiras o caso cheirase mau. Mas, pasmem, a picaretagem, próximo do julgamento do STF (caso de Roraima) tem o apoio da Funai. O que me deixa irritado é o fato de uma ong estrangeira vir aqui e criar um clima contencioso com suas fraudes maquiavélicas e tem uma instituição governamental que coaduna com seus projetos. Não bastasse as ONGs considerarem o Brasil a "Casa da Mâe Joana", onde elas entram e saem quando querem, uma instituição da "Casa da Mâe Joana" é conivente. Chegou a hora de espulsarmos esta canalha que há décadas vilipendiando o "Quintal do Mundo" (Brasil). Os americanos consideram o Brasil como seu "Quintal" mas, pelo que vemos, nós fomos promovidos: subimos para a nobre categoria de "Quintal do Mundo", onde tudo pode, tudo se faz, tudo se permite (aos estrangeiros, é claro). Temos que exigir a espulsão imediata desta ONGs, fachada das agências clandestinas de informação das potências mundiais. Temos que impedir que a CIA e o MI6 (MI5, sei lá) atuem livremente através de suas filiais no mundo (ONGs). E temos que exigir com urgência do presidente LULA a extinção imediata da FUNAI, uma instituição subversiva, que atua apenas para satisfazer a picaretagem geopolítica de americanos, ingleses, franceses, alemâes, noruegueses, holandeses, etc,etc,etc,etc,etc,etc. Chegou a hora dos brasileiros demonstrarem ao mundo que o Brasil tem dono: O Povo Brasileiro.



Quem lê este artigo, também lê:
Uma plástica no Urutu
O missionário das denominaçôes evangélicas
Sobrenatural: a Vida de William Branham
Japoneses na maior forma
Regime para o cérebro
Era uma vez na amazônia
Sob o comando da vitamina A

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A Ultima Receita

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Forum Vivavida

Casa das Raizes



Categoria: Obras completas
Autor: Machado de Assis

A viúva Lemos adoecera; uns dizem que dos nervos, outros que de saudades do marido.
Fosse o que fosse, a verdade é que adoecera, em certa noite de setembro, ao regressar
de um baile. Morava então no Andaraí, em companhia de uma tia surda e devota. A
doença não parecia coisa de cuidado; todavia era necessário fazer alguma coisa. Que
coisa seria? Na opinião da tia um cozimento de altéia e um rosário a não sei que santo do
céu eram remédios infalíveis. D. Paula (a viúva) não contestava a eficácia dos remédios
da tia, mas opinava por um médico.
Chamou-se um médico.
Havia justamente na vizinhança um médico, formado de pouco, e recente morador na
localidade. Era o dr. Avelar, sujeito de boa presença, assaz elegante e médico feliz. Veio
o dr. Avelar na manhã seguinte, pouco depois das oito horas. Examinou a doente e
reconheceu que a moléstia não passava de uma constipação grave. Teve entretanto a
prudência de não dizer o que era, como aquele médico da anedota do bicho no ouvido,
anedota que o povo conta, e que eu contaria também, se me sobrasse papel.
O dr. Avelar limitou-se a torcer o nariz quando examinou a enferma, e a receitar dois ou
três remédios, dos quais só um era útil; o resto figurava no fundo do quadro.
D. Paula tomou os remédios como quem não queria deixar a vida. Havia razão. Apenas
dois anos fora casada, e contava apenas vinte e quatro anos. Havia já treze meses que
lhe morrera o marido. Apenas entrara no pórtico do matrimônio.
A esta circunstância é justo acrescentar mais duas; era bonita e tinha alguma coisa de
seu. Três razões para agarrar-se à vida como o náufrago a uma tábua de salvação.
Uma única razão haveria para que ela aborrecesse o mundo: era se tivesse realmente
saudades do marido. Mas não tinha. O casamento fora um arranjo de família e dele
próprio; Paula aceitou o arranjo sem murmurar. Honrou o casamento, mas não deu ao
marido nem estima nem amor. Viúva dois anos depois, e ainda moça, é claro que a vida
para ela começava apenas. A idéia de morrer seria para ela não só a maior de todas as
calamidades, mas também a mais desastrada de todas as tolices.
Não quis morrer nem o caso era de morte.
Os remédios foram tomados pontualmente; o médico mostrou-se assíduo; dentro de
poucos dias, três a quatro, estava restabelecida a interessante enferma.
De todo?
Não.
Quando o médico voltou no quinto dia, achou-a sentada na sala, envolvida em grande
roupão, com os pés numa almofada, o rosto extremamente pálido, e muito mais ainda por
causa da pouca luz.
O estado era natural em quem se levantava da cama; mas a viuvinha alegou ainda umas
dores de cabeça, a que o médico chamou nevralgia, e uns tremores, que foram
classificados no capítulo dos nervos.
— Serão graves moléstias? perguntou ela.
— Oh! não, minha senhora, respondeu Avelar, são achaques aborrecidos, mas não
graves, e geralmente próprios de doentes formosas.
Paula sorriu com um ar tão triste que fazia duvidar do prazer com que ouviu estas
palavras do médico.
— Dá-me porém remédios, não? perguntou ela.
— Sem dúvida.
Avelar receitou efetivamente alguma coisa e prometeu voltar no dia seguinte.
A tia era surda, como sabemos, não ouvia nada da conversa entre os dois. Mas não era
tola; começou a reparar que a sobrinha ficava mais doente quando se aproximava a
chegada do médico. Além disso nutria dúvidas sérias acerca da aplicação exata dos
remédios. O certo é porém que Paula, tão amiga de bailes e passeios, parecia realmente
doente porque não saía de casa.
Notou igualmente a tia que, pouco antes da hora do médico, a sobrinha fazia uma
aplicação mais copiosa de pó-de-arroz. Paula era morena; ficava muito branca. A meia luz
da sala, os xales, o ar mórbido tornavam-lhe a palidez extremamente verossímil.
A tia não parou nesse ponto; foi ainda além. Não era médico o Avelar? Naturalmente
devia saber se realmente estava enferma a viúva. Interrogado o médico, asseverou que a
viúva estava muito mal, e prescreveu-lhe o mais absoluto repouso.
Tal era a situação da enferma e do facultativo.
Um dia em que este entrou achou-a folheando um livro. Estava com a palidez de costume
e o mesmo ar abatido.
— Como vai a minha doente? disse familiarmente o dr. Avelar.
— Mal.
— Mal?
— Horrorosamente mal... Que lhe parece o pulso?
Avelar examinou-lhe o pulso.
— Regular, disse ele. A tez está um tanto pálida, mas os olhos parecem bons... Houve
algum ataque?
— Não; mas sinto-me desfalecida.
— Deu o passeio que lhe aconselhei?
— Não tive ânimo.
— Fez mal. Não passeou e está lendo...
— Um livro inocente.
— Inocente?
O médico pegou no livro e examinou-lhe a lombada.
— Um livro diabólico! disse ele atirando-o para cima da mesa.
— Por quê?
— Livro de poeta, livro para namorados, minha senhora, que é uma casta de doentes
terríveis. Não se curam eles; ou raramente se curam; mas há pior, que é adoecerem os
sãos. Peço-lhe licença para confiscar o livro.
— Uma distração! murmurou Paula com uma doçura capaz de vencer um tirano.
Mas o médico mostrou-se firme.
— Uma perversão, minha senhora! Em ficando boa pode ler se quiser todos os poetas do
século; antes, não.
Paula ouviu esta palavra com singular, mas disfarçada alegria.
— Parece-lhe então que estou muito doente? disse ela.
— Muito, não digo; tem ainda um resto de abalo que só pode desaparecer com o tempo e
um regime severo.
— Severo demais.
— Mas necessário...
— Duas coisas lastimo sobre todas.
— Quais?
— A pimenta e o café.
— Oh!
— É o que lhe digo. Não tomar café nem pimenta é o limite da paciência humana. Quinze
dias mais deste regime ou desobedeço ou expiro.
— Nesse caso, expire, disse Avelar sorrindo.
— Acha melhor?
— Acho igualmente mau. O remorso, porém, será meu só, enquanto que se V. Excia.
desobedecer terá os seus últimos instantes amargurados por um tardio arrependimento.
Melhor é morrer vítima que culpada.
— Melhor é não morrer nem culpada nem vítima.
— Nesse caso não tome pimenta nem café.
A leitora que acaba de ler esta conversa, admirar-se-ia muito se visse a nossa doente
nesse mesmo dia ao jantar: teve pimenta à farta e bebeu excelente café no fim. Não
admira porque era o seu costume. A tia admirava-se com razão de uma doença que
consentia tais liberdades; a sobrinha não se explicava cabalmente a este respeito.
Choviam convites de jantares e bailes. A viuvinha recusava-os todos por causa do seu
mau estado de saúde.
Foi uma verdadeira calamidade.
Entraram a chover as visitas e bilhetes. Muitas pessoas achavam que a doença devia ser
interna, muito interna, profundamente interna, visto que lhe não apareciam sinais no rosto.
Os nervos (eternos caluniados!) foram a explicação que geralmente se deu à singular
moléstia da moça.
Três meses correram assim, sem que a doença de Paula cedesse uma linha aos esforços
do médico. Os esforços do médico não podiam ser maiores; de dois em dois dias uma
receita. Se a doente se esquecia do seu estado e entrava a falar e a corar como quem
tinha saúde, o médico era o primeiro a lembrar-lhe o perigo, e ela obedecia logo
entregando-se à mais prudente inação.
Às vezes zangava-se.
— Todos os senhores são uns bárbaros, dizia ela.
— Uns bárbaros... necessários, respondia Avelar sorrindo.
E acrescentava:
— Eu não direi o que são as doentes.
— Diga sempre.
— Não digo.
— Caprichosas?
— Mais.
— Rebeldes?
— Menos.
— Impertinentes?
— Sim. Algumas são impertinentes e amáveis.
— Como eu.
— Naturalmente.
— Já o esperava, dizia a viúva Lemos sorrindo. Sabe por que razão lhe perdôo tudo? É
porque é médico. Um médico tem carta branca para gracejar conosco; isso mesmo nos
dá saúde.
Neste ponto levantou-se.
— Parece-me até que já estou melhor.
— Parece e está... quero dizer, está muito mal.
— Muito mal?
— Não, muito mal, não; não está boa...
— Meteu-me um susto!
Seria realmente zombar do leitor o explicar-lhe que a doente e o médico estavam a
pender um para o outro; que a doente sofria tanto como o Corcovado, e que o médico
conhecia cabalmente a sua perfeita saúde. Gostavam um do outro sem se atreverem a
dizer a verdade, simplesmente pelo receio de se enganarem. O meio de se falarem todos
os dias era aquele.
Mas gostavam eles já antes da fatal constipação do baile? Não. Até então ignoravam a
existência um do outro. A doença favoreceu o encontro; o encontro o coração; o coração
favorecia desde logo o casamento, se tivessem caminhado em linha reta, em vez dos
rodeios em que andavam.
Quando Paula ficou boa da constipação adoeceu do coração; não tendo outro recurso
fingiu-se doente. O médico, que pela sua parte desejava isso mesmo, exagerou ainda as
invenções da suposta enferma.
A tia, sendo surda, assistia inutilmente aos diálogos da doente com o médico. Um dia
escreveu a este pedindo-lhe que apressasse a cura da sobrinha. Avelar desconfiou da
carta a princípio. Seria uma despedida? Podia ser pelo menos uma desconfiança.
Respondeu que a moléstia de D. Paula era aparentemente insignificante, mas podia
tornar-se grave sem um regime severo, que ele lhe recomendava sempre.
A situação, entretanto, prolongava-se. A doente estava cansada da doença, e o médico
da medicina. Ambos eles começaram a desconfiar que não eram mal aceitos. O negócio
entretanto não caminhava muito.
Um dia Avelar entrou triste em casa da viúva.
— Jesus! exclamou sorrindo a viúva; ninguém dirá que é o médico. Parece o doente.
— Doente de lástima, disse Avelar abanando a cabeça; por outros termos, é a lástima que
me dá este ar enfermo.
— Lástima de quê?
— De V. Excia.
— De mim?
— É verdade.
A moça riu-se consigo mesma; todavia esperou a explicação.
Houve um silêncio.
No fim dele:
— Sabe, disse o médico, sabe que está muito mal?
— Eu?
Avelar fez um gesto afirmativo.
— Já o sabia, suspirou a doente.
— Não digo que tudo esteja perdido, continuou o médico, mas nada se perde em
prevenir.
— Então...
— Coragem!
— Fale.
— Mande chamar o padre.
— Aconselha-me a confissão?
— É indispensável.
— Perderam-se todas as esperanças?
— Todas. Confissão e banhos.
A viúva soltou uma risada.
— E banhos?
— Banhos de igreja.
Outra risada.
— Aconselha-me então o casamento.
— Justo.
— Imagino que está gracejando.
— Estou falando muito sério. O remédio não é novo nem desprezível. Todas as semanas
lá vão muitos enfermos, e dão-se bem alguns deles. É um específico inventado desde
muitos séculos e que provavelmente só acabará no último dia do mundo. Pela minha
parte nada mais tenho que fazer.
Quando a viuvinha menos esperava, Avelar levantou-se e saiu. Falava sério ou
gracejava? Dois dias se passaram sem que o médico voltasse. A doente estava triste; a
tia aflita; houve idéia de mandar chamar outro médico. Recusou-a a doente.
— Então só um médico acertou com a tua moléstia?
— Talvez.
No fim de três dias recebeu a viúva Lemos uma carta do médico.
Abriu-a.
Dizia assim:
É absolutamente impossível esconder por mais tempo o que sinto por V. Excia. Amo-a.
Sua moléstia precisa de uma última receita, verdadeiro remédio para quem ama — sim,
porque V. Excia. também me ama. Que razão obrigaria a negá-lo?
Se a sua resposta for afirmativa haverá mais dois entes felizes neste mundo.
Se negativa...
Adeus!
A carta foi lida com explosão de entusiasmo; o médico foi chamado a toda a pressa, para
receber e dar saúde. Casaram-se os dois daí a quarenta dias.
Tal é a história da Última receita.
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística


Quem lê esta obra, lê também:
A Mágoa do Infeliz Cosme

A Viúva Sobral

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Categoria: Obras Completas
Autor:Machado de Assis



CAPITULO PRIMEIRO
— Explico-me.
— Mas explica-te refrescando a goela. Queres um sorvete? Vá, dois sorvetes. Traga dois
sorvetes... Refresquemo-nos, que realmente o calor está insuportável. Estiveste em
Petrópolis.
— Não.
— Nem eu.
— Estive no Pati do Alferes, imagina por quê?
— Não posso.
— Vou...
— Acaba.
— Vou casar.
Cesário deixou cair o queixo de assombro, enquanto o Brandão saboreava, olhando para
ele, o gosto de ter dado uma novidade grossa. Vieram os sorvetes, sem que o primeiro
saísse da posição em que a notícia o deixou; era evidente que não lhe dava crédito.
— Casar? repetiu ele afinal, e o Brandão respondeu-lhe com a cabeça que sim, que ia
casar. Não, não, é impossível.
Estou que o leitor não sente a mesma incredulidade, desde que considera que o
casamento é a tela da vida, e que toda a gente casa, assim como toda a gente morre. Se
alguma coisa o enche de assombro é o assombro de Cesário. Tratemos de explicá-lo em
cinco ou seis linhas.
Viviam juntos esses dois rapazes desde os onze anos, e mais intimamente desde os
dezesseis. Contavam agora vinte e oito. Um era empregado no comércio, outro da
alfândega. Tinham uma parte da vida comum, e comuns os sentimentos. Assim é que
ambos faziam do casamento a mais deplorável idéia, com ostentação, com excesso, e
para afirmá-lo, viviam juntos a mesma vida solta. Não só entre eles deixara de haver
segredo, mas até começava a ser impossível que o houvesse, desde que ambos davam
os mesmos passos, de um modo uníssono. Começa a entender-se o espanto do Cesário.
— Dá-me a tua palavra que não estás brincando?
— Conforme.
— Ah!
— Quando eu digo que vou casar, não quero dizer que tenho a dama pedida; quero dizer
que o namoro está a caminho, e que desta vez é sério. Resta adivinhar quem é.
— Não sei.
— E foste tu mesmo que me levaste lá.
— Eu?
— É a Sobral.
— A viúva?
— Sim, a Candinha.
— Mas...?
Brandão contou tudo ao amigo. Cerca de algumas semanas antes, Cesário levara-o à
casa de um amigo do patrão, um Viegas, comerciante também, para jogar o voltarete; e
ali acharam, pouco antes chegada do Norte, uma recente viúva, D. Candinha Sobral. A
viúva era bonita, afável, dispondo de uns olhos que os dois concordaram em achar
singulares. Os olhos, porém, eram o menos. O mais era a reputação de mau gênio que
esta moça trazia. Disseram que ela matara o marido com desgostos, caprichos,
exigências; que era um espírito absoluto, absorvente, capaz de deitar fogo aos quatro
cantos de um império para aquecer uma xícara de chá. E, como sempre acontece, ambos
acharam que, a despeito das maneiras, lia-se-lhe isso mesmo no rosto; Cesário não
gostara de um certo jeito da boca, e o Brandão notara-lhe nas narinas o indício da teima e
da perversidade. Duas semanas depois tornaram a encontrar-se os três, conversaram, e
a opinião radicou-se. Eles chegaram mesmo à familiaridade da expressão: — má rês,
alma de poucos amigos, etc.
Agora entende-se, creio eu, o espanto do amigo Cesário, não menos que o prazer do
Brandão em dar-lhe a notícia. Entende-se, portanto, que só começassem a tomar os
sorvetes para não vê-los derretidos, sem nenhum deles saber o que estava fazendo.
— Juro que há quinze dias não era capaz de cuidar nisto, continuava o Brandão; mas os
dois últimos encontros, principalmente o de segunda-feira... Não te digo nada... Creio que
acabo casando.
— Ah! crês!
— É um modo de falar, é certo que acabo.
Cesário acabou o sorvete, engoliu um cálice de cognac, e fitou o amigo, que raspava o
copo, amorosamente. Depois fez um cigarro, acendeu-o, puxou duas ou três fumaças, e
disse ao Brandão que ainda esperava vê-lo recuar; em todo caso, aconselhava-lhe que
não publicasse desde já o plano; esperasse algum tempo. Talvez viesse a recuar...
— Não, interrompeu Brandão com energia.
— Como, não?
— Não recuo.
Cesário levantou os ombros.
— Achas que faço mal? pergunta o outro.
— Acho.
— Por quê?
— Não me perguntes por quê.
— Ao contrário, pergunto e insisto. Opões-te por causa de ser casamento.
— Em primeiro lugar.
Brandão sorriu.
— E por causa da noiva, concluiu ele. Já esperava por isso; estás então com a opinião
que ambos demos logo que ela chegou da província? Enganas-te. Também eu estava;
mas mudei...
— E depois, continuou Cesário, falo por um pouco de egoísmo; vou perder-te...
— Não.
— Sim e sim. Ora tu!... Mas como foi isso?
Brandão contou os pormenores do negócio; expôs minuciosamente todos os seus
sentimentos. Não a pedira ainda, nem havia tempo para tanto; a própria resolução não
estava formulada. Mas tinha por certo o casamento. Naturalmente, louvou as qualidades
da namorada, sem convencer ao amigo, que, aliás, entendeu não insistir na opinião e
guardá-la consigo.
— São simpatias, dizia ele.
Saíram depois de longo tempo de conversação, e separaram-se na esquina. Cesário mal
podia crer que o mesmo homem, que antipatizara com a viúva e dissera dela tantas
coisas e tão grotescas, quinze dias depois estivesse apaixonado ao ponto de casar. Puro
mistério! E resolvia o caso na cabeça, e não achava explicação, não se tratando de um
criançola, nem de uma descomunal beleza. Tudo por querer achar, à força, uma
explicação; se não a procurasse, dava com ela, que era justamente nenhuma, coisa
nenhuma.
CAPITULO II
Emendemos o Brandão. Contou ele que os dois últimos encontros com a viúva, aqui na
corte, é que lhe deram a sensação do amor; mas a verdade pura é que a sensação só o
tomou inteiramente no Pati do Alferes, de onde ele acaba de chegar. Antes disso, podia
ficar um pouco lisonjeado das maneiras dela, e ter mesmo alguns pensamentos; mas o
que se chama sensação amorosa não a teve antes. Foi ali que ele mudou de opinião a
respeito dela, e se deixou cair nas graças de uma dama, que diziam ter matado o marido
com desgostos.
A viúva Sobral não tinha menos de vinte e sete anos nem mais de trinta; ponhamos vinte
e oito. Já vimos o que eram os olhos; — podiam ser singulares, como eles diziam, mas
eram também bonitos. Vimos ainda um certo jeito da boca, mal aceito ao Cesário,
enquanto as narinas o eram ao Brandão, que achou nelas o indício da teima e da
perversidade. Resta mostrar a estatura, que era muito elegante, e as mãos, que nunca
estavam paradas. No baile não lhe notou o Brandão esta última circunstância; mas no
Pati do Alferes, na casa da prima, familiarmente e a gosto, achou que ela movia as mãos
sempre, sempre, sempre. Só não atinou com a causa, se era uma necessidade, um
sestro, ou uma intenção de mostrá-las, por serem lindas.
No terceiro dia, começou o Brandão a perguntar onde estava a maldade do gênio de D.
Candinha. Não achava nada que pudesse dar indício dela; via-a alegre, dada,
conversada, ouvindo as coisas com muita paciência, e contando anedotas do Norte com
muita graça. No quarto dia, os olhos de ambos andaram juntos, não se sabendo
unicamente se foram os dele que procuraram os dela, ou vice-versa; mas andaram juntos.
De noite, na cama, o Brandão jurava a si mesmo que era tudo calúnia, e que a viúva tinha
mais de anjo que de diabo. Dormiu tarde e mal. Sonhou que um anjo vinha ter com ele e
lhe pedia para trepar ao céu; trazia a cara da viúva. Ele aceitou o convite; a meio
caminho, o anjo pegou das asas e cravou-as na cabeça, à laia de pontas, e carregou-o
para o inferno. Brandão acordou transpirando muito. De manhã, perguntou a si mesmo:
— Será um aviso?
Evitou os olhos dela, durante as primeiras horas do dia; ela, que o percebeu, recolheu-se
ao quarto e não apareceu antes do jantar. Brandão estava desesperado, e deu todos os
sinais que podiam exprimir o arrependimento e a súplica do perdão. D. Candinha, que era
uma perfeição, não fez caso dele até à sobremesa; à sobremesa começou a mostrar que
podia perdoar, mas ainda assim o resto do dia não foi como o anterior. Brandão deu-se a
todos os diabos. Chamou-se ridículo. Um sonho? Quem diabo acredita em sonhos?
No dia seguinte tratou de recuperar o perdido, que não era muito, como vimos, tãosomente
alguns olhares; alcançou-o para a noite. No outro estavam as coisas
restabelecidas. Ele lembrou-se então que, durante as horas de frieza, notara nela o mau
jeito da boca, o tal, o que lhe dava indício da perversidade da viúva; mas tão depressa o
lembrou, como rejeitou a observação. Antes era um aviso, passara a ser uma
oportunidade.
Em suma, voltou no princípio da seguinte semana, inteiramente namorado, posto sem
nenhuma declaração de parte a parte. Ela pareceu-lhe ficar saudosa. Brandão chegou a
lembrar-se que a mão dela, à despedida, estava um pouco trêmula; mas, como a dele
também tremia, não se pode afirmar nada.
Só isto. Não havia mais do que isto, no dia em que ele referiu ao Cesário que ia casar.
Que não pensava senão no casamento, era verdade. D. Candinha voltou para a corte daí
a duas semanas, e ele estava ansioso por vê-la, para lhe dizer tudo, tudo, e pedi-la, e
levá-la à igreja. Chegou a pensar no padrinho: seria o inspetor da alfândega.
Na alfândega, notaram-lhe os companheiros um certo ar distraído, e às vezes, superior;
mas ele não disse nada a ninguém. Cesário era o confidente único, e antes não fosse
único; ele procurava-o todos os dias para lhe falar da mesma coisa, com as mesmas
palavras, e inflexões. Um dia, dois dias, três dias, vá; mas sete, mas quinze, mas todos!
Cesário confessava-lhe, rindo, que era demais.
— Realmente, Brandão, tu estás que pareces um namorado de vinte anos...
— O amor nunca é mais velho, redargüiu o outro; e, depois de fazer um cigarro, puxar
duas fumaças, e deixá-lo apagar, continuava a repetição das mesmas coisas e palavras,
com as mesmíssimas inflexões.
CAPITULO III
Vamos e venhamos: a viúva gostava um pouco do Brandão; não digo muito, digo um
pouco, e talvez muito pouco. Não lhe parecia grande coisa, mas sempre era mais que
nada. Ele fazia-lhe amiudadas visitas e olhava muito para ela; mas, como era tímido, não
lhe dizia nada, não chegava a planear uma linha.
— Em que ponto vamos, em suma? Perguntava-lhe o Cesário um dia, fatigado de só ouvir
entusiasmos.
— Vamos devagar.
— Devagar?
— Mas com segurança.
Um dia recebeu Cesário um convite da viúva para lá ir a uma reunião familiar: era
lembrança do Brandão, que foi ter com ele e pediu-lhe instantemente que não faltasse.
Cesário sacrificou o teatro nessa noite, e foi. A reunião esteve melhor do que ele
esperava; divertiu-se muito. Na rua disse ele ao amigo:
— Agora, se me permites franqueza, vou chamar-te um nome feio.
— Chama.
— Tu és um palerma.
— Viste como ela olhava para mim?
— Vi, sim, e por isso mesmo é que acho que estás botando dinheiro à rua. Pois uma
pessoa assim disposta... Realmente és um bobo.
Brandão tirou o chapéu e coçou a cabeça.
— Para falar a verdade, eu mesmo já tenho dito essas coisas, mas não sei que acho em
mim, acanho-me, não me atrevo...
— Justamente; um palerma.
Andaram ainda alguns minutos calados.
— E não te parece esplêndida? perguntou o Brandão.
— Não, isso não; mais bonita do que a princípio, é verdade; fez-me melhor impressão;
esplêndida é demais.
Quinze dias depois, viu-a o Cesário em casa de terceiro, e pareceu-lhe que ainda era
melhor. Daí começou a freqüentar a casa, a pretexto de acompanhar o outro, e ajudá-lo,
mas realmente porque começava a olhá-la com olhos menos desinteressados. Já aturava
com paciência as longas confissões do amigo; chegava mesmo a procurá-las.
D. Candinha percebeu, em pouco tempo, que em vez de um, tinha dois adoradores. Não
era motivo de pôr luto ou deitar fogo à casa; parece mesmo que era caso de vestir galas;
e a rigor, se alguma falha havia, era que eles fossem dois, e não três ou quatro. Para
conservar os dois, D. Candinha usou de um velho processo: dividindo com o segundo as
esperanças do primeiro, e ambos ficavam entusiasmados. Verdade é que o Cesário,
posto não fosse tão valente, como dizia, era muito mais que o Brandão. De maneira que,
ao cabo de algumas dúzias de olhares, apertou-lhe a mão com muito calor. Ela não a
apertou de igual modo, mas também não se deu por zangada, nem por achada.
Continuou a olhar para ele. Mentalmente, comparava-os:
Um dia o Brandão descobriu um olhar trocado entre o amigo e a viúva. Naturalmente ficou
desconsolado, mas não disse nada; esperou. Daí a dias notou mais dois olhares, e
passou mal a noite, dormiu tarde e mal; sonhou que matara ao amigo. Teve a
ingenuidade de contá-lo a este, que riu muito, e disse-lhe que fosse tomar juízo.
— Você tem coisas! Pois bem; somos concordes nisto: — deixo de voltar à casa dela...
— Isso nunca!
— Então que queres?
— Quero que me digas, francamente, se gostas dela, e se vocês se namoram.
Cesário declarou-lhe que era uma simples fantasia dele, e continuou a namorar a viúva, e
o Brandão também, e ela aos dois, todos com a maior unanimidade.
Naturalmente as desconfianças reviveram, e assim as explicações, e começaram os
azedumes e as brigas. Uma noite, ceando os dois, de volta da casa dela, estiveram a
ponto de brigar formalmente. Mais tarde separaram-se por dias; mas como o Cesário teve
de ir a Minas, o outro reconciliou-se com ele à volta, e dessa vez não instou para que
tornasse a freqüentar a casa da viúva. Esta é que lhe mandou convite para outra reunião;
e tal foi o princípio de novas contendas.
As ações de ambos continuavam no mesmo pé. A viúva distribuía as finezas com
igualdade prodigiosa, e o Cesário começava a achar que a complacência para com o
outro era longa demais.
Nisto apareceu no horizonte uma pequenina mancha branca; era algum navio que se
aproximava com as velas abertas. Era navio e de alto bordo; — um viúvo, médico, ainda
conservado, que entrou a cortejar a viúva. Chamava-se João Lopes. Já então o Cesário
tinha arriscado uma carta, e mesmo duas, sem obter resposta. A viúva foi passar alguns
dias fora, depois da segunda; quando voltou, recebeu terceira, em que o Cesário lhe dizia
as coisas mais ternas e súplices. Esta carta deu-lha em mão.
— Espero que me não conservará mais tempo na incerteza em que vivo. Peço-lhe que
releia as minhas cartas...
— Não as li.
— Nenhuma?
— Quatro palavras da primeira apenas. Imaginei o resto e imaginei a segunda.
Cesário refletiu alguns instantes: depois disse com muita discrição:
— Bem; não lhe pergunto os motivos, porque sei que me hão de desenganar; mas eu não
quero ser desenganado. Peço-lhe uma só coisa.
— Peça.
— Peço-lhe que leia esta terceira carta, disse ele, tirando a carta do bolso; aqui está tudo
o que estava nas outras.
— Não... não...
— Perdão; pedi-lhe isto, é um favor último; juro que não tornarei mais.
D. Candinha continuou a recusar; ele deixou a carta no dunkerque, cumprimentou-a e
saiu. A viúva não desgostou de ver a obstinação do rapaz, teve curiosidade de ler o papel,
e achou que o podia fazer sem perigo. Não transcrevo nada, por que eram as mesmas
coisas de todas as cartas de igual gênero. D. Candinha resolveu dar-lhe resposta igual à
das primeiras, que era nenhuma.
Cesário teve o desengano verbal, três dias depois, e atribuiu-o ao Brandão. Este
aproveitou a circunstância de achar-se só para dar a batalha decisiva. É assim que ele
chamava a todas as escaramuças. Escreveu-lhe uma carta a que ela respondeu deste
modo:
Devolvo o bilhete que me entregou ontem, por engano, e desculpe se li as primeiras
palavras; afianço-lhe que não vi o resto.
O pobre-diabo quase teve uma congestão. Meteu-se na cama três dias, e levantou-se
resolvido a voltar lá; mas a viúva tornara a sair da cidade Quatro meses depois casava ela
com o médico. Quanto ao Brandão e o Cesário, que estavam já brigados, nunca mais se
falaram; criaram ódio um ao outro, ódio implacável e mortal. O triste é que ambos
começaram por não gostar da mesma mulher, como o leitor sabe, se se lembra do que
leu.
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística


Quem lê esta obra, lê também:
A carteira
A cartomante
A causa secreta
O Mundo Perdido
Quem Foi Alfred Wegener?
Pantano de Sangue
O Missionário Que Abalou o Cristianismo

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sexta-feira, 28 de março de 2008

A Mágoa do Infeliz Cosme

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Categoria: Obras Completas
Autor: Machado de Assis
I
Imensa e profunda foi a mágoa do infeliz Cosme. Depois de três anos de não interrompida
ventura, faleceu-lhe a mulher, ainda na flor da idade, e no esplendor das graças com que
a dotara a natureza. Uma rápida moléstia a arrebatou aos carinhos do esposo e à
admiração de quantos tiveram a honra e o prazer de praticar com ela. Quinze dias apenas
esteve de cama; mas foram quinze séculos para o infeliz Cosme. Por cúmulo de
desgraças, expirou longe dos olhos dele; Cosme saíra para ir buscar a solução de um
negócio; quando chegou à casa achou um cadáver.
Dizer a aflição em que este acontecimento lançou o infeliz Cosme pediria outra pena que
não a minha. Cosme chorou logo no primeiro dia todas as suas lágrimas; no dia seguinte
tinha os olhos exaustos e secos. Os seus numerosos amigos contemplavam com tristeza
o rosto do infeliz e ao lançar a pá de terra sobre o caixão já depositado no fundo da cova,
mais de um recordou os dias que passara ao pé dos dois esposos, tão queridos um do
outro, tão venerados e amados dos seus íntimos.
Cosme não se limitou ao encerramento usual dos sete dias. A dor não é costume, dizia
ele aos que o iam visitar; sairei daqui quando puder arrastar o resto dos meus dias. Ali
ficou durante seis semanas, sem ver a rua nem o céu. Os seus empregados iam prestarlhe
contas, a que ele, com incrível esforço, prestava religiosa atenção. Cortava o coração
ver aquele homem ferido no que havia de mais caro para ele, discutir às vezes um erro de
soma, uma troca de algarismos. Uma lágrima às vezes vinha interromper a operação. O
viúvo lutava com o homem do dever.
Ao cabo de seis semanas resolveu sair à rua o infeliz Cosme.
- Não estou curado, dizia ele a um compadre; mas é preciso obedecer às necessidades
da vida.
- Infeliz! exclamou o compadre apertando-o nos braços.
II
Na véspera de sair foi visitá-lo um moço de vinte e oito anos, que podia ser seu filho,
porque o infeliz Cosme contava quarenta e oito. Cosme conhecera o pai de Oliveira e fora
seu companheiro nos bons tempos da mocidade. Oliveira afeiçoou-se ao amigo de seu
pai, e freqüentava-lhe a casa ainda antes do casamento.
- Sabe que vou casar? disse um dia Cosme a Oliveira.
- Sim? Com quem?
- Adivinhe.
- Não posso.
- Com D. Carlota.
- Aquela moça a quem me apresentou ontem no teatro?
- Justo.
- Dou-lhe meus parabéns.
Cosme arregalou os olhos de contente.
- Não lhe parece que faço boa escolha?
- Uma excelente moça: formosa, rica...
- Um anjo!
Oliveira puxou duas fumaças do charuto e observou:
- Mas como arranjou isso? Nunca me falou em tal. Verdade é que sempre o conheci
discreto; e meu pai costumava dizer que o senhor era uma urna inviolável.
- Por que motivo andaria eu a bater com a língua nos dentes?
- Tem razão...
- Este casamento há de dar que falar, porque eu já estou um pouco maduro.
- Oh! não parece.
- Mas estou; cá tenho já os meus quarenta e cinco. Não os mostro, bem sei; apuro-me no
vestir, e não tenho um fio de cabelo branco.
- E conta ainda um mérito mais: é experiente.
- Dois méritos: experiente e sossegado. Não estou na idade de andar correndo a viasacra
e dando desgosto à família, que é o defeito dos rapazes. Parece-lhe então que
seremos felizes?
- Como dois eleitos do céu.
Cosme, que ainda não era o infeliz Cosme, esfregou as mãos de contentamento e
manifestou a opinião de que o seu jovem amigo era um espírito sensato e observador.
Efetuou-se o casamento com assistência de Oliveira, que, apesar da mudança de estado
do amigo de seu pai, não deixou de lhe freqüentar a casa. De todos os que lá iam era o
que tinha maior intimidade. Suas boas qualidades lhe davam jus à estima e veneração.
Desgraçadamente era moço e Carlota era bela. Oliveira, ao cabo de alguns meses,
sentiu-se loucamente apaixonado. Era honrado e viu a gravidade da situação. Quis evitar
o desastre; deixou de freqüentar a casa de Cosme. Cerca de cinqüenta dias deixou de lá
ir, até que o amigo o encontrou e à viva força o levou a jantar.
A paixão não estava morta nem caminhava para isso; a vista da bela Carlota não fez mais
do que converter em incêndio o que já era braseiro.
Eu desisto de contar as lutas em que andou o coração de Oliveira durante todo o tempo
que viveu a esposa de Cosme. Evitou ele manifestar nunca à formosa dama o que sentia
por ela; um dia, porém, tão patente era o seu amor, que ela claramente lho percebeu.
Uma leve sombra de vaidade fez com que Carlota não descobrisse com maus olhos o
amor que inspirara ao rapaz. Não tardou, porém, que a reflexão e o sentimento da honra
lhe mostrassem todo o perigo daquela situação. Carlota mostrou-se severa com ele, e
este recurso fez ainda mais aumentar as disposições respeitosas em que se achava
Oliveira.
- Tanto melhor! disse ele consigo.
A exclamação de Oliveira queria dizer duas coisas. Era, primeiramente, uma homenagem
de respeito à amada do seu coração. Era também uma esperança. Oliveira nutria a doce
esperança de que Carlota enviuvasse mais cedo do que supunha o marido, e nesse caso
podia ele apresentar a sua candidatura, com certeza de que recebia uma mulher
provadamente virtuosa.
Os acontecimentos dissiparam todos esse castelos; Carlota foi a primeira a sair deste
mundo, e a dor de Oliveira não foi menor que a dor do infeliz Cosme. Nem teve ânimo de
ir ao enterro; foi à missa, e a muito custo pôde reter as lágrimas.
Agora que seis semanas haviam decorrido depois da terrível catástrofe, Oliveira procurou
o infeliz viúvo na véspera do dia em que este saía à rua, como eu tive a honra de lhes
dizer.
III
Cosme estava assentado diante da escrivaninha examinando melancolicamente alguns
papéis. Oliveira assomou à porta do gabinete. O infeliz viúvo voltou o rosto e encontrou os
olhos do amigo. Nenhum deles se moveu; a sombra da moça parecia ter surgido entre
ambos. Enfim, o infeliz Cosme levantou-se e atirou-se aos braços do amigo.
Não se sabe bem o tempo que eles gastaram nesta magoada e saudosa atitude. Quando
se desprenderam, Oliveira enxugou furtivamente uma lágrima; Cosme levou o lenço aos
olhos.
A princípio, evitaram falar da moça; mas o coração trouxe naturalmente aquele assunto
de conversa.
Cosme era incansável nos louvores que tecia à finada esposa, cuja perda, dizia ele, não
era só irreparável, havia de ser-lhe mortal. Oliveira procurava dar-lhe algumas
consolações.
- Oh! exclamou o infeliz Cosme, para mim não há consolações. Isto agora já não é viver, é
vegetar, é arrastar o corpo e a alma sobre a terra, até o dia em que Deus se compadeça
de ambos. A dor que eu sinto cá dentro é um germe da morte; sinto que não posso durar
muito tempo. Tanto melhor, meu caro Oliveira, mais depressa irei ter com ela.
Estou muito longe de lhe censurar esse sentimento, observou Oliveira procurando
disfarçar a comoção. Não conheci eu durante três anos o que valia aquela alma?
- Nunca a houve mais angélica!
Cosme proferiu estas palavras levantando as mãos para o teto, com uma expressão
mesclada de admiração e saudade, que abalaria as próprias cadeiras se tivessem
ouvidos. Oliveira concordou plenamente com o juízo do amigo.
- Era efetivamente um anjo, disse ele. Nenhuma mulher teve ainda tantas qualidades
juntas.
- Oh! meu bom amigo! Se soubesse que satisfação me está dando! Neste mundo de
interesses e vaidades, ainda há um coração puro, que sabe apreciar os dotes do céu.
Carlota era isso mesmo que o senhor está dizendo. Era ainda muito mais. A alma dela
ninguém a conheceu nunca como eu. Que bondade! que ternura! que graça infantil! Além
destes dons, que severidade! que singeleza! E, enfim, se passarmos, melhor direi, se
descermos a outra ordem de virtudes, que amor da ordem! que amor do trabalho! que
economia!
O infeliz viúvo levou as mãos aos olhos e ficou algum tempo acabrunhado ao peso de tão
doces e amargas recordações. Oliveira também estava comovido. O que ainda mais o
entristecia foi reparar que estava sentado na mesma cadeira em que Carlota costumava
passar as noites, a conversar com ele e o marido. Cosme levantou enfim a cabeça.
- Perdoe-me, disse ele, estas fraquezas. São naturais. Eu seria um monstro se não
chorasse aquele anjo.
Chorar, naquela ocasião, era uma figura poética. O infeliz Cosme tinha os olhos secos.
- Nem já lágrimas tenho, continuou ele traduzindo em prosa o que acabava de dizer. As
lágrimas ao menos são um desabafo; mas este sentir interior, esta tempestade que não
rompe, mas que se concentra no coração, isto é pior que tudo.
- Tem razão, disse Oliveira, deve ser assim, e é natural que seja. Não me tenha
entretanto por um consolador banal; é necessário, não digo esquecê-la, que seria
impossível, mas voltar-se para a vida, que é uma necessidade.
Cosme esteve algum tempo calado.
- Já tenho dito isso mesmo, respondeu ele, e sinto que assim acontecerá mais cedo ou
mais tarde. Vida é que nunca hei de ter; daqui até a morte é apenas um vegetar. Mas,
enfim, isso mesmo é preciso...
Oliveira continuou a dizer-lhe algumas palavras de consolação, que o infeliz Cosme ouvia
distraído, com os olhos ora no teto, ora nos papéis que tinha diante de si. Oliveira,
entretanto, precisava também de quem o consolasse, e não pôde falar muito tempo sem
comover-se a si próprio. Seguiu-se um curto silêncio, que o infeliz Cosme foi o primeiro a
romper.
- Sou rico, disse ele, ou antes, corre que o sou. Mas de que me servem os bens? A
riqueza não me substitui o tesouro que perdi. Mais ainda; essa riqueza ainda aumenta a
minha saudade, porque parte dela foi Carlota que ma trouxe. Bem sabe que eu a
receberia com um vestido de chita...
- Ora! disse Oliveira levantando os ombros.
- Bem sei que me faz justiça; mas há invejosos ou caluniadores para quem estes
sentimentos são apenas máscaras de interesse. Lastimo essas almas. Esses corações
são podres.
Oliveira concordou plenamente com a opinião do infeliz Cosme.
O viúvo continuou:
- Demais, ainda que eu fosse um homem de interesse, a minha boa Carlota devia tornarme
um amigo. Nunca vi mais nobre desinteresse que o dela. Alguns dias antes de morrer
quis fazer testamento. Baldei todos os esforços para impedi-la; ela foi mais forte do que
eu. Tive de ceder. Nesse testamento constituiu-me ela seu herdeiro universal. Ah! eu
daria toda a herança por uma semana mais de existência para ela. Uma semana? que
digo? por uma hora mais!
IV
Os dois amigos foram interrompidos por um escravo que trazia uma carta. Cosme leu a
carta e perguntou:
- Esse homem está aí?
- Está na sala.
- Lá vou.
O escravo saiu.
- Veja, senhor! Não se pode durante uma hora falar ao coração; a prosa da vida aí vem.
Permite-me?
- Pois não.
Cosme saiu e foi à sala; Oliveira ficou só no gabinete, onde tudo lhe recordava os tempos
de outrora. Estava ainda ao pé da escrivaninha o banquinho onde Carlota pousava os
pés; Oliveira teve ímpetos de beijá-lo. Tudo ali, até as gravuras de que Carlota gostava
tanto, tudo ali parecia ter impressa a viva imagem da moça.
No meio das reflexões foi interrompido pelo infeliz Cosme.
- Perdão! disse este, venho buscar uma coisa; volto já.
Cosme abriu uma gaveta, tirou de dentro algumas caixas de jóias, e saiu. Oliveira teve
curiosidade de saber para que fim o viúvo levava as jóias, mas ele não lhe deu tempo de
o interrogar.
Nem era preciso.
O próprio Cosme veio dizer-lho cerca de dez minutos depois.
- Meu amigo, disse ele, isto é insuportável.
- Que há?
- Lá se foi parte da minha existência. As jóias de minha mulher...
Não pôde acabar; caiu sobre uma cadeira e pôs a cabeça nas mãos.
Oliveira respeitou aquela explosão de dor, que ele não compreendia. Ao cabo de algum
tempo, Cosme levantou a cabeça; tinha os olhos vermelhos. Esteve ainda alguns
segundos calado. Enfim:
- O homem a quem fui falar veio buscar as jóias de minha mulher. Obedeço a uma
expressa vontade dela.
- Vontade dela?
- Um capricho, talvez, mas um capricho digno do seu coração. Carlota pediu-me que não
me tornasse a casar. Era inútil o pedido, porque depois de ter perdido aquele anjo, é claro
que eu não tornaria ligar a minha existência à de nenhuma outra mulher.
- Oh! decerto!
- Todavia, exigiu que lho jurasse. Jurei. Não se contentou com isso.
- Não?
- "Tu não sabes o que pode acontecer no futuro, disse-me ela; quem sabe se o destino
não te obrigará a esquecer este juramento que me fizeste? Exijo uma coisa mais, exijo
que vendas as minhas jóias, a fim de que outra mulher não as ponha sobre si".
O infeliz Cosme terminou esta revelação com um suspiro. Oliveira estava interiormente
dominado por um sentimento de inveja. Não era inveja somente, eram também ciúmes.
Pobre Oliveira! era completa a sua desgraça! A mulher que ele amava tanto se desfazia
em provas de amor com o marido na hora solene em que se despedia da terra.
Estas reflexões fazia o triste namorado, enquanto o infeliz Cosme, todo entregue à doce
imagem da esposa extinta, interrompia o silêncio com suspiros que vinham diretamente
do coração.
- Vendi as jóias, disse Cosme depois de algum tempo de meditação, e o senhor pode
avaliar a mágoa com que me desfiz delas. Bem vê que foi ainda uma prova de amor que
dei à minha Carlota. Todavia, exigi profundo silêncio do joalheiro e o mesmo exijo do
senhor... Sabe por quê?
Oliveira fez sinal que não entendia.
- É porque eu não vou contar a todos a cena que se passou unicamente entre mim e ela.
Achariam ridículo, alguns nem lhe dariam crédito. De maneira, que eu não poderia
escapar à reputação de avaro e mau homem, que nem uma doce lembrança sabia
guardar da mulher que o amou.
- Tem razão.
O infeliz Cosme tirou melancolicamente o lenço da algibeira, assoou-se e prosseguiu:
- Mas teria razão o mundo, ainda quando aquele anjo me não houvesse pedido o
sacrifício que acabo de fazer? Vale mais uma lembrança representada por pedras de
valor do que a lembrança representada na saudade que fica no coração? Com franqueza,
eu detesto esse materialismo, esse aniquilamento da alma, em proveito de coisas
passageiras e estéreis. Bem fraco deve ser o amor que precisa de objetos palpáveis e
sobretudo valiosos, para não ser esquecido. A verdadeira jóia, meu amigo, é o coração.
Oliveira respondeu a esta teoria do infeliz Cosme com um desses gestos que não afirmam
nem negam, e que exprimem o estado duvidoso do espírito. Efetivamente, o mancebo
estava perplexo ao ouvir as palavras do viúvo. Era claro para ele que a saudade existe no
coração, sem necessidade de recordações externas, mas não admitia de todo que o uso
de guardar alguma lembrança das pessoas mortas fosse um materialismo, como dizia o
infeliz Cosme.
Estas mesmas dúvidas expôs ele ao amigo, depois de alguns minutos de silêncio, e foram
ouvidas com um sorriso benévolo da parte deste.
- O que o senhor diz é exato, observou Cosme, se atendermos unicamente à razão; mas
tão entranhado se acha o sentimento no coração do homem, que eu vendi tudo, menos
uma coisa. Quis que, ao menos isso, me ficasse até a morte; tão certo é que o coração
tem seus motivos e argumentos especiais...
- Oh! sem dúvida! disse Oliveira. Metade das coisas deste mundo são regidas pelo
sentimento. Em vão procuramos furtar-nos a ele... Ele é mais forte do que os nossos
débeis raciocínios.
Cosme fez uma leve inclinação de cabeça, e ia metendo a mão na algibeira do paletó,
para tirar a jóia aludida, quando um escravo veio anunciar que o jantar estava na mesa.
- Vamos jantar, disse Cosme; à mesa lhe mostrarei o que é.
V
Saíram do gabinete para a sala de jantar. A sala de jantar ainda mais entristeceu o amigo
do infeliz Cosme. Tantas vezes jantara ali em companhia dela, tantas contemplara ali os
seus olhos, tantas ouvira as suas palavras!
O jantar era farto, como de costume. Cosme deixou-se cair numa cadeira, enquanto
Oliveira tomava assento ao pé dele. Um criado serviu a sopa, que o infeliz viúvo comeu
apressadamente, não sem observar ao amigo, que era a primeira vez que realmente tinha
vontade de comer.
Não era difícil de crer que assim devia de ser após seis semanas de quase total
abstinência, ao ver a celeridade com que o infeliz Cosme varria os pratos que lhe punham
diante dele.
Terminada a sobremesa, Cosme ordenou que o café fosse levado ao gabinete, onde
Oliveira teve ocasião de ver a jóia que a saudade de Cosme impedira de ser vendida
como as outras.
Era um alfinete de esmeralda perfeito; mas a perfeição da obra não era o que lhe dava
todo o valor, como observou o infeliz Cosme.
Oliveira não pôde reter um grito de surpresa.
- O que é? perguntou o dono da casa.
- Nada.
- Nada?
- Uma lembrança.
- Diga o que é.
- Esse alfinete quis eu comprar, no ano passado, em casa de Farani. Não foi lá que o
comprou?
- Foi.
- Que singularidade!
- Singularidade?
- Sim; eu quis comprá-lo justamente para dar à minha irmã no dia em que fazia anos.
Disseram-me que estava vendido. Era ao senhor.
- Era a mim. Não me custou barato; mas que me importava isso, se era para ela?
Oliveira continuou a examinar o alfinete. De repente exclamou.
- Ah!
- Que é?
- Lembra-me ainda outra circunstância, disse Oliveira. Eu já sabia que este alfinete tinha
sido comprado pelo senhor.
- Disse-lho ela?
- Não, minha irmã. Um dia em que aqui estivemos, minha irmã viu este alfinete no peito
de D. Carlota, e gabou-o muito. Ela disse-lhe então que o senhor lho dera um dia em que
foram à Rua dos Ourives, e ela ficara encantada com esta jóia... Se soubesse como eu
praguejei nessa ocasião contra o senhor!
- Não lhe parece muito bonito?
- Oh! lindíssimo!
- Ambos nós gostávamos muito dele. Pobre Carlota! Nem por isso deixava de amar a
simplicidade. A simplicidade era o seu principal dote; este alfinete, de que tanto gostava,
só o pôs duas vezes, creio eu. Um dia altercamos por causa disso; mas, já se vê,
altercação de namorados. Eu disse-lhe que era melhor não comprar jóias, se ela as não
havia de trazer, e acrescentei, brincando, que me daria muito gosto, se mostrasse que
tinha bens de fortuna. Gracejos, gracejos, que ela ouvia a rir e acabávamos ambos
alegres... Pobre Carlota!
Durante este tempo, Oliveira contemplava e admirava o alfinete, com o coração
palpitante, como se tivesse ali um pedaço do corpo que se fora. Cosme olhava
atentamente para ele. Seus olhos faiscavam às vezes; outras vezes pareciam apagados e
sombrios. Seriam ciúmes póstumos? O coração do viúvo adivinharia o amor culpado,
ainda que respeitoso, do amigo?
Oliveira surpreendeu o olhar do infeliz Cosme e prontamente lhe entregou o alfinete.
- Ela queria muito à sua irmã, disse o desventurado viúvo depois de alguns instantes de
silêncio.
- Oh! muito!
- Conversávamos muita vez a respeito dela... Tinham a mesma idade, penso eu?
- D. Carlota era mais moça dois meses.
- Pode-se dizer que era a mesma idade. Às vezes pareciam-se duas crianças. Quantas
vezes ralhei graciosamente com ambas; riam-se e zombavam de mim. Se soubesse com
que satisfação as via brincar! Nem por isso era Carlota menos grave, e sua irmã, também,
quando convinha que o fossem.
O infeliz Cosme continuou assim a elogiar ainda uma vez os dotes da finada esposa, com
a diferença que, desta vez, acompanhava o discurso com movimentos rápidos do alfinete
que tinha na mão. Um raio de sol poente vinha brincar na pedra preciosa, de onde
Oliveira quase não podia arrancar os olhos. Com o movimento que lhe dava a mão de
Cosme, parecia a Oliveira que o alfinete era uma coisa viva, e que parte da alma de
Carlota ali brincava e sorria para ele.
O infeliz Cosme interrompeu os louvores que fazia à amada do seu coração e olhou
também para o alfinete.
- É realmente bonito! disse ele.
Oliveira olhava para o alfinete, mas via mais do que ele, via a moça; não admira pois que
respondesse maquinalmente:
- Oh! divino!
- É pena que tenha este defeito...
- Não vale nada, acudiu Oliveira.
A conversa prosseguiu ainda algum tempo a respeito do alfinete e das virtudes da finada
Carlota. A noite veio interromper essas doces efusões do coração de ambos. Cosme
anunciou que provavelmente saía no dia seguinte para recomeçar a lida, mas já sem o
ânimo que tivera nos três anos anteriores.
- Todos nós, disse ele, ainda os que não somos poetas, precisamos de uma musa.
Separaram-se pouco depois.
O infeliz Cosme não quis que o amigo fosse sem levar uma lembrança da pessoa a quem
tanto estimara, e que o prezava deveras.
- Tome lá, disse o infeliz Cosme, tome esta flor de grinalda com que ela se casou; leve
esta outra para sua irmã.
Oliveira quis beijar as mãos do amigo. Cosme recebeu-o nos braços.
- Nenhuma lembrança dei ainda a ninguém, observou o viúvo depois de o apertar nos
braços; nem sei se alguém receberá tanto, como estas que lhe acabo de dar. Eu sei
distinguir os grandes amigos dos amigos comuns.
VI
Oliveira saiu da casa de Cosme com a alegria de um homem que acabasse de tirar a
sorte grande. De quando em quando tirava as duas flores secas, quase desfeitas, metidas
numa caixinha, e olhava para elas e tinha ímpetos de as beijar.
- Oh! posso fazê-lo! exclamava ele consigo. Não me punge nenhum remorso. Saudades,
sim, e muitas, mas respeitosas como foi o meu amor.
Depois:
- Infeliz Cosme! Como ele a ama! Que coração de ouro! Para aquele homem já não há
gozos na terra. Ainda que não fosse seu amigo de longo tempo, a afeição que ele ainda
hoje tem à sua pobre esposa era bastante para que o adorasse. Bem haja o céu que me
poupou um remorso!
No meio destas e outras reflexões Oliveira chegou à casa. Então beijou à vontade as
flores da grinalda de Carlota, e acaso verteu sobre elas uma lágrima; depois do quê, foi
levar à irmã a flor que lhe pertencia.
Nessa noite teve sonhos de ouro.
No dia seguinte estava a almoçar quando recebeu uma carta de Cosme. Abriu-a com a
sofreguidão própria de quem se achava ligado àquele homem por tantos laços.
- Não vem só a carta, disse o escravo.
- Que há mais?
- Esta caixinha.
Oliveira leu a carta.
A carta dizia:
Meu bom e leal amigo,
Vi ontem o entusiasmo que lhe causou o alfinete que desejava dar à sua irmã e que eu
tive a fortuna de comprar primeiro.
Tanta afeição lhe devo que não posso nem quero privá-lo do prazer de oferecer essa jóia
à sua interessante irmã.
Apesar das circunstâncias em que ela se acha nas minhas mãos, refleti, e entendi que
devo obedecer aos desejo de Carlota.
Cedo-lhe a jóia, não pelo custo, mas com dez por cento de diferença. Não vá imaginar
que lhe faço um obséquio: o abatimento é justo.
Seu infeliz amigo
Cosme.
Oliveira leu a carta três ou quatro vezes. Há fundadas razões para crer que não almoçou
nesse dia.


Outras obras do autor:
A carteira
A cartomante
A causa secreta
A chave
A chinela turca
Adao e eva
A desejada das gentes
A Igreja do diabo
A Inglezinha Barcelos
Almas Agradecidas


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quinta-feira, 27 de março de 2008

Almas Agradecidas

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Categoria: Obras Completas
Autor: Machado de Assis
I
Havia representação no Ginásio. A peça da moda era então a célebre Dama das
camélias. A casa estava cheia. No fim do quarto ato começou a chover um pouco; do
meio do quinto ato em diante, a chuva redobrou de violência.
Quando acabou o espetáculo, cada família entrou no seu carro; as poucas que não
tinham esperavam uma estiada, e, mediante os guarda-chuvas, lá saíram com as saias
arregaçadas.
.............. aos olhos dando,
O que às mãos cobiçosas vão negando.
Os homens abriam os seus guarda-chuvas; outros chamavam tílburis; e pouco a pouco se
foi despejando o saguão, até que só ficaram dois rapazes, um dos quais abotoara até o
pescoço o paletó, e esperava maior estiada para sair, porque além de não ter guardachuva,
não via nenhum tílburi no horizonte.
O outro também abotoara o paletó, mas tinha guarda-chuva; não parecia, entretanto,
disposto a abri-lo. Olhava de esguelha para o primeiro, que fumava tranqüilamente um
charuto.
Já o porteiro havia fechado as duas portas laterais e ia fazer o mesmo à porta central,
quando o rapaz do guarda-chuva dirigiu ao outro estas palavras:
— Para que lado vai?
O interpelado compreendeu que o companheiro lhe ia oferecer abrigo e respondeu, com
palavras de agradecimento, que morava na Glória.
— É muito longe, disse ele, para aceitar o abrigo que naturalmente me quer oferecer. Eu
esperarei aqui um tílburi.
— Mas a porta vai fechar-se, observou o outro.
— Não importa, esperarei do lado de fora.
— Não é possível, insistiu o primeiro; a chuva ainda está forte e pode aumentar mais. Não
lhe ofereço abrigo até casa porque moro na Prainha, que é justamente do lado oposto;
mas posso cobri-lo até ao Rocio, onde encontraremos um tílburi.
— É verdade, respondeu o rapaz que não tinha guarda-chuva; não me havia ocorrido isto,
aceito com prazer.
Saíram os dois rapazes e foram até ao Rocio. Nem sombra de tílburi ou caleça.
— Não admira, disse o rapaz do guarda-chuva; foram todos com gente do teatro. Daqui a
pouco haverá algum de volta...
— Mas eu não quisera dar-lhe o incômodo de o reter mais tempo aqui à chuva.
— Cinco ou dez minutos, talvez; esperaremos.
A chuva veio contrariar estes bons desejos do rapaz, caindo com furor. Mas o desejo de
servir tem mil maneiras de se manifestar. O rapaz do guarda-chuva propôs um meio
excelente de escapar à chuva e esperar condução: era ir tomar chá ao hotel que mais à
mão lhes ficasse. O convite não era mau; tinha só o inconveniente de vir de um
desconhecido. Antes de lhe responder, o rapaz sem guarda-chuva deitou um rápido olhar
ao seu companheiro, espécie de exame prévio da condição social da pessoa. Parece que
a achou boa, porque aceitou o convite.
— É levar muito longe a sua bondade, disse ele, mas eu não posso deixar de abusar dela;
a noite está inclemente.
— Eu também costumo esquecer o guarda-chuva, e amanhã estarei nas suas mesmas
circunstâncias.
Foram para o hotel e daí a pouco tinham diante de si um excelente pedaço de rosbife frio,
acompanhado de não menos excelente chá.
— Há de desculpar a minha curiosidade, disse o rapaz sem guarda-chuva; mas eu
desejaria saber a quem devo a obsequiosidade com que sou tratado há vinte minutos.
— Não somos inteiramente desconhecidos, respondeu o outro; a sua memória é que é
menos conservadora do que a minha.
— De onde me conhece?
— Do colégio. Andamos juntos no colégio Rosa...
— Andei lá, é verdade, mas...
— Não se lembra do 0liveira? Aquele que trocava as réguas por laranjas? Aquele que
desenhava com giz o retrato do mestre nas costas dos outros meninos?
— Que me diz? É o senhor?
— De carne e osso; eu mesmo. Acha-me mudado, não?
— Oh! muito!
— Não admira; eu era naquele tempo uma criança rechonchuda e vermelha; hoje como
vê, estou quase tão magro como D. Quixote; e não foram trabalhos, porque eu não os
tenho tido; nem desgostos, que eu ainda não os experimentei. O senhor, porém, é que
não mudou; se não fosse esse pequeno bigode, pareceria o mesmo daquele tempo.
— E todavia não me hão faltado desgostos, acudiu o outro; minha vida tem sido
atribulada. A natureza tem destas coisas.
— Casou?
— Não; e o senhor?
— Também não.
A pouco e pouco começaram as confidências pessoais; cada um narrou aquilo que podia
narrar, por maneira que, ao fim da ceia, pareciam tão íntimos como no tempo do colégio.
Sabemos destas revelações mútuas, que Oliveira era bacharel em direito, e começava a
advogar com pouco êxito. Herdara alguma coisa da avó, última parenta que conservara
até então, tendo-lhe morrido os pais antes de entrar na adolescência. Estava com certo
desejo de entrar na vida política e contava com a proteção de alguns amigos de seu pai,
para ser eleito deputado à Assembléia Provincial fluminense.
Magalhães era o nome do outro; não herdara de seus pais dinheiro, nem amigos políticos.
Aos 16 anos, achou-se só no mundo; exercera vários empregos de caráter particular, até
que conseguira obter uma nomeação para o Arsenal de Guerra, onde estava atualmente.
Confessou que esteve a ponto de enriquecer, casando com uma viúva rica; mas não
revelou as causas que lhe impediram essa mudança de fortuna.
A chuva cessara de todo. Já uma parte do céu se havia descoberto deixando aparecer o
rosto da lua cheia, cujos raios pálidos e frios brincavam nas pedras e nos telhados
úmidos.
Saíram os nossos dois amigos.
Magalhães declarou que iria a pé.
— Não chove mais, disse ele; ou, pelo menos, nesta meia hora; vou a pé até à Glória.
— Pois bem, respondeu Oliveira; já lhe disse o número da minha casa e do meu
escritório; apareça lá algumas vezes; folgarei de reatar as nossas relações da meninice.
— Também eu; até breve.
Despediram-se na esquina da Rua do Lavradio, e Oliveira enfiou pela de S. Jorge. Ambos
foram pensando um no outro.
— Parece ser um excelente rapaz este Magalhães, dizia o jovem advogado consigo; no
colégio, foi sempre um menino sério. Ainda o é agora, e até parece um pouco reservado,
mas é natural porque sofreu.
II
Três dias depois, apareceu Magalhães no escritório de Oliveira; falou na sala a um
porteiro que lhe pediu o cartão.
— Não tenho cartão, respondeu Magalhães envergonhado; esqueci-me de o trazer; digalhe
que é o Magalhães.
— Queira esperar alguns minutos, tornou o porteiro; ele está conversando com uma
pessoa.
Magalhães assentou-se numa cadeira de braços, enquanto o porteiro assoava
silenciosamente o nariz e tomava uma pitada de rapé, que lhe não ofereceu. Magalhães
examinou detidamente as cadeiras, as estantes, os quadros de gravuras, os capachos e
as escarradeiras. A sua curiosidade era minuciosa e sagaz; parecia estar avaliando o
gosto ou a riqueza de seu ex-colega.
Minutos depois, ouviu-se um rumor de cadeiras, e não tardou que viesse da sala do fundo
um velho alto e empertigado, vestido com certo apuro, a quem o porteiro fez largos
cumprimentos até o patamar da escada.
Magalhães não esperou que o porteiro fosse avisar Oliveira; atravessou o corredor que
separava as duas salas e foi ter com o amigo.
— Ora, viva! disse este apenas o viu entrar. Estimo que não lhe houvesse esquecido a
promessa. Sente-se; chegou a casa com chuva?
— Começou a chuviscar, quando eu me achava a dois passos da porta, respondeu
Magalhães.
— Que horas são?
— Pouco mais de duas, creio eu.
— O meu relógio está parado, disse Oliveira, lançando o olhar de esguelha para o colete
de Magalhães, que não tinha relógio. Naturalmente, ninguém mais me procurará hoje; e
ainda que venham, quero descansar.
Oliveira tocou a campainha apenas acabou de proferir estas palavras. Veio o porteiro.
— Se vier alguém, disse Oliveira, não estou cá.
O porteiro inclinou-se e saiu.
— Estamos livres de importunos, disse o advogado, apenas o porteiro virou as costas.
Todas estas maneiras e palavras de simpatia e cordialidade foram angariando a confiança
de Magalhães, que começou a parecer alegre e franco com o seu ex-colega.
Longa foi a conversa, que durou até às 4 horas da tarde. As 5 jantava Oliveira; mas o
outro jantava às 3, e se o não disse, era talvez por deferência, se não fosse por cálculo.
Um jantar copioso e escolhido não era melhor que o ramerrão culinário de Magalhães?
Fosse uma ou outra coisa, Magalhães suportou a fome com admirável denodo. Eram 4
horas da tarde, quando Oliveira deu acordo de si.
— Quatro horas! exclamou ele, ouvindo as badaladas de um sino próximo. Naturalmente,
já você perdeu a hora do jantar.
— Assim é, respondeu Magalhães; eu costumo jantar às 3 horas. Não importa; adeus.
— Isso é que não; há de ir jantar comigo
— Não; obrigado...
— Ande cá, jantaremos no hotel mais próximo, porque a minha casa é longe. Eu ando
com idéia de mudar de casa; estou muito fora do centro da cidade. Vamos aqui ao Hotel
de Europa.
Os vinhos eram bons; Magalhães gostava de vinhos bons. No meio do jantar, tinha-se-lhe
desenvolvido completamente a língua. Oliveira fazia quanto podia para tirar ao amigo da
infância toda espécie de acanhamento. Isto e o vinho deram excelente resultado.
Desta ocasião em diante foi que Oliveira começou a apreciar o ex-colega. Era Magalhães
um rapaz de agudo espírito, boa observação, conversador ameno, um pouco lido em
obras fúteis e correntes. Tinha, além disso, o dom de ser naturalmente insinuante. Com
estas prendas juntas não era difícil, era antes facílimo angariar as boas graças de
Oliveira, que, à sua extrema bondade, reunia uma natural confiança, ainda não diminuída
pelos cálculos da vida madura. Demais Magalhães tinha sido infeliz; esta circunstância
era aos olhos de Oliveira um realce. Finalmente, o seu ex-colega já lhe confiara no trajeto
do escritório ao hotel, que não contava um amigo debaixo do sol. Oliveira queria ser esse
amigo.
Qual importa mais à vida, ser Dom Quixote ou Sancho Pança? O ideal ou o prático? A
generosidade ou a prudência? Oliveira não hesitava entre esses dois opostos papéis;
nem sequer pensara neles. Estava no período do coração.
Apertaram-se os laços da amizade entre os dois colegas. Oliveira mudou-se para a
cidade, o que deu azo a que os dois amigos se encontrassem mais vezes. A freqüência
veio a uni-los ainda mais.
Oliveira apresentou Magalhães a todos os seus amigos; levou-o à casa de alguns. A sua
palavra afiançava o hóspede que, dentro em pouco tempo, captava as simpatias de todos.
Nisto era Magalhães superior a Oliveira. Não faltava ao advogado inteligência, nem
maneiras, nem dom para se fazer estimado. Mas os dotes de Magalhães superavam os
dele. A conversa de Magalhães era mais picante, mais variada, mais atraente. Há muito
quem prefira a amizade de um homem sarcástico, e Magalhães tinha seus longes de
sarcástico.
Não se magoava com isto Oliveira, antes parecia ter certa glória em ver que seu amigo
obtinha por seu mérito a estima dos outros.
Facilmente acreditará o leitor que estes dois amigos se fizessem confidentes de todas as
coisas, principalmente de coisas de amores. Nada esconderam a este respeito um ao
outro, com a diferença de que Magalhães, não tendo amores atuais, confiou ao amigo
apenas algumas proezas antigas, ao passo que Oliveira, a braços com algumas
aventuras, não dissimulou nenhuma delas, e tudo contou a Magalhães.
E foi bem que o fizesse, porque Magalhães era homem de bom conselho, dava ao amigo
pareceres sensatos, que ele ouvia e aceitava com grande proveito seu e para maior glória
da recíproca amizade.
A dedicação de Magalhães ainda se manifestava por outro modo. Não era raro vê-lo
desempenhar um papel de conciliador, auxiliar uma inocente mentira, ajudar o amigo em
todas as dificuldades que o amor depara aos seus alunos.
III
Um dia de manhã, leu Oliveira, ainda na cama, a notícia da demissão de Magalhães,
impressa no Jornal do Commercio. Grande foi a sua mágoa, mas ainda maior que a
mágoa foi a raiva que esta notícia lhe causou. Demitir Magalhães! Oliveira mal podia
compreender este ato do ministro. O ministro era necessariamente tolo ou tratante.
Havia patronato naquilo. Não seria pagamento a algum eleitor solícito?
Estas e outras conjecturas preocuparam o advogado até à hora do almoço. Almoçou
pouco. O estômago acompanhava a dor do coração.
Magalhães devia ir nesse dia ao escritório de Oliveira. Com que ansiedade esperou este a
hora marcada! Esteve a ponto de faltar a um depoimento de testemunhas. Mas a hora
chegou e Magalhães não apareceu. Oliveira estava sobre brasas. Qual a razão da falta?
Não atinava com ela.
Eram quatro horas, quando saiu do escritório, e sua resolução imediata foi meter-se num
tílburi e seguir para a Glória.
Assim o fez.
Quando lá chegou, estava Magalhães lendo um romance. Não parecia abatido pelo golpe
ministerial. Todavia, não estava alegre. Fechou o livro lentamente e abraçou o amigo.
Oliveira não podia conter a sua cólera.
— Lá vi hoje, disse ele, a notícia da tua demissão. É uma patifaria sem nome...
— Por quê?
— Ainda o perguntas?
— Sim; por quê? O ministro é senhor dos seus atos e responsável por eles; podia demitirme
e fê-lo.
— Mas fez mal, disse Oliveira.
Magalhães sorriu tristemente.
— Não podia deixar de o fazer, disse ele; um ministro é muitas vezes um amanuense do
destino, que só parece ocupar-se em me perturbar a vida e multiplicar todos os esforços.
Que queres? Eu já estou acostumado, não resisto; dia virá em que estes golpes terão um
termo. Dia virá em que eu possa vencer a má fortuna de uma vez para sempre. Tenho o
remédio nas mãos.
— Deixa-te de tolices, Magalhães.
— Tolices?
— Mais que tolices; sê forte!
Magalhães abanou a cabeça.
— Não custa aconselhar fortaleza, murmurou ele; mas quem tem sofrido como eu...
— Já não contas com os amigos?
— Os amigos não podem tudo.
— Muito obrigado! Eu te mostrarei, se podem.
— Não te iludas, Oliveira; não te esforces a favor de um homem que a sorte condenou.
— Histórias!
— Sou um condenado.
— És um fracalhão.
— Acreditas que eu...
— Acredito que és um fracalhão, e que não pareces aquele mesmo Magalhães que sabe
conservar o sangue frio em todas as ocasiões graves. Descansa, eu tirarei desforra
brilhante. Antes de quinze dias estarás empregado.
— Não creias...
— Desafias-me?
— Não; bem conheço de que é capaz teu coração nobre e generoso... mas...
— Mas o quê?
Receio que a má fortuna seja mais forte do que eu.
— Verás.
Oliveira deu um passo para a porta.
— Nada disso impede que venhas jantar comigo, disse ele, voltando-se para Magalhães.
— Obrigado; já jantei.
— Anda ao menos comigo para ver se te distrais.
Magalhães recusou; mas Oliveira insistiu com tão boa vontade que não havia recusar.
Durante a noite seguinte meditou Oliveira acerca do negócio de Magalhães. Tinha amigos
importantes, os mesmos que forcejavam por lhe abrir carreira política. Oliveira pensou
neles como os mais próprios para levar a cabo a obra de seus desejos. O grande caso
para ele era empregar Magalhães, em cargo tal que despicasse da prepotência
ministerial. O substantivo prepotência era a exata expressão de Oliveira.
Não lhe ocultaram os amigos que o caso não era fácil; mas prometeram que a dificuldade
seria vencida. Não se dirigiram ao ministro da Guerra, mas a outro; Oliveira pôs em
campo o recurso feminino. Duas senhoras de seu conhecimento foram em pessoa falar
ao ministro, em favor do feliz candidato.
Não negou o digno membro do poder executivo a dificuldade de criar um lugar para dar
ao pretendente. Seria cometer a injustiça de tirar o pão a empregados úteis ao país.
Instavam, porém, os padrinhos, audiências e cartas, pedidos de toda sorte; nada ficou por
empregar em favor de Magalhães.
Depois de cinco dias de lutas e solicitações diárias, declarou o ministro que poderia dar
um bom emprego a Magalhães na Alfândega de Corumbá. Já era boa vontade da parte
do ministro, mas os protetores de Magalhães recusaram a graça.
— O que se deseja de V. Excia., disse um deles, é que o nosso afilhado seja empregado
aqui mesmo na corte. Vai nisso uma questão de honra, e uma questão de comodidade.
Tinha boa vontade o ministro, e entrou a cogitar no meio de acomodar o pretendente.
Havia em uma das repartições a seu cargo um empregado que durante o ano faltava
muitas vezes ao ponto, e na última peleja eleitoral votara contra o ministro. Caiu-lhe uma
demissão em casa, e para evitar empenhos mais fortes, no mesmo dia em que apareceu
a demissão do empregado vadio, apareceu a nomeação de Magalhães.
Foi o próprio Oliveira que levou a Magalhães o desejado decreto.
— Dá-me cá um abraço, disse ele, e reza aí um mea culpa. Venci o destino. Estás
nomeado.
— Quê! será possível?
— Aqui tens o decreto!
Magalhães caiu nos braços de Oliveira.
A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele que o faz.
Magalhães exprimia todo seu reconhecimento pela dedicação e perseverança de Oliveira;
mas a alegria de Oliveira não tinha limites. A explicação desta diferença está talvez neste
fundo de egoísmo que há em todos nós.
Em todo caso, a amizade dos dois ex-colegas ganhou com isso maior solidez.
IV
O novo emprego de Magalhães era muito melhor que o primeiro em categoria e lucro, de
maneira que a demissão, longe de lhe ser um golpe funesto do destino, foi um lance de
melhor fortuna.
Passou Magalhães a ter melhor casa e a alargar um pouco mais a bolsa, pois que a tinha
agora mais farta que dantes; Oliveira observava esta mudança e regozijava-se com a
idéia de que contribuíra para ela.
A vida de ambos continuaria por este teor, plácida e indiferente, se um acontecimento não
a viesse perturbar de repente.
Um dia, achou Magalhães que Oliveira parecia preocupado. Perguntou-lhe francamente o
que era.
— Que há de ser? disse Oliveira. Eu sou um miserável nessas coisas de amores; estou
apaixonado.
— Queres que te diga uma coisa?
— O quê?
— Acho que fazes mal em diluir o teu coração com essas mulheres.
— Que mulheres?
— Essas.
— Não me compreendes, Magalhães; a minha atual paixão é séria; amo uma menina
honesta.
— Que mágoas então são essas? Casa com ela.
— Esse é o ponto. Creio que ela não me ama.
— Ah!
Houve um silêncio.
— Mas não te resta esperança nenhuma? perguntou Magalhães.
— Não posso dizer isso; não penso que ela seja sempre esquiva ao meu sentimento; mas
por ora nada há entre nós.
Magalhães entrou a rir.
— Pareces-me calouro, homem! disse ele. Quantos anos tem ela?
— Dezessete.
— A idade da inocência; suspiras em silêncio e queres que ela te adivinhe. Nunca
chegarás ao cabo. Tem-se comparado o amor à guerra. Assim é. No amor, querem-se
atos de bravura como na guerra. Avança afoitamente e vencerás.
Oliveira ouvia estas palavras com a atenção de um homem sem iniciativa, a quem todo
conselho serve. Confiava no juízo de Magalhães e o parecer dele era razoável.
— Parece-te então que eu devo expor-me?
— Sem dúvida.
O advogado referiu depois todas as circunstâncias do seu encontro com a moça em
questão. Pertencia a uma família com quem esteve em casa de terceiro; o pai era um
excelente homem, que o convidou a freqüentar a casa, e a mãe uma excelente senhora,
que ratificou o convite do marido. Oliveira não tinha ido lá depois disso, porque, segundo
imaginava, a moça não correspondia à sua afeição.
— És um tolo, disse Magalhães quando o amigo acabou a narração. Vês a rapariga num
baile, ficas gostando dela, e só porque ela não te caiu logo nos braços, desistes de lhe
freqüentar a casa. Oliveira, tem juízo: vai à casa dela, e dir-me-ás daqui a pouco tempo se
te não aproveita o conselho. Queres casar, não?
— Oh! podias pôr em dúvida?...
— Não; é uma pergunta. Não é casamento romântico?
— Que queres dizer com isso?
— Ela é rica?
Oliveira franziu a testa.
— Não te zangues, disse MagaLhães. Eu não sou nenhum espírito rasteiro; também,
conheço as delicadezas do coração. Nada vale mais que um amor verdadeiro e
desinteressado. Não se me há de censurar, porém, que eu procure ver o lado prático das
coisas; um coração de ouro vale muito; mas um coração de ouro com ouro vale mais.
— Cecília é rica.
— Pois tanto melhor!
— Afianço-te, porém, que essa consideração...
— Não precisas afiançar nada; eu bem sei o que vales, disse Magalhães apertando as
mãos de Oliveira. Anda, meu amigo, não te detenho; procura a tua felicidade.
Animado por estes conselhos, tratou Oliveira de sondar o terreno para declarar a sua
paixão. Omiti de propósito a descrição de Cecília feita por Oliveira ao seu amigo
Nagalhães. Não desejava exagerar aos olhos dos leitores a beleza da moça, que a um
namorado parece sempre maior do que realmente é. Mas Cecília era realmente formosa.
Era uma beleza, uma flor em toda a extensão da palavra. Todas as forças e fulgores da
mocidade estavam nela, que apenas saía da adolescência e parecia anunciar longa e
esplêndida juventude. Não era alta, mas também não era baixa. Era acima de meã. Era
muito corada e viva; tinha uns olhos brilhantes e buliçosos, olhos de namorada ou
namoradeira; era talvez um pouco afetada, mas deliciosa; tinha certas exclamações que
lhe ficavam bem nos seus lábios finos e úmidos.
Oliveira não viu logo todas estas coisas na noite em que lhe falou; mas não tardou que ela
se lhe revelasse assim, desde que começou a freqüentar a casa dela.
Nisto, era Cecília ainda um pouco criança; não sabia dissimular, nem era difícil captar-lhe
a confiança. Mas, através das aparências de frivolidade e volubilidade, descobria-lhe
Oliveira sólidas qualidades de coração. O contacto redobrou o seu amor. No fim de um
mês, Oliveira parecia perdido por ela.
Magalhães continuava a ser o conselheiro de Oliveira e o seu único confidente. Um dia,
pediu-lhe o namorado que fosse com ele à casa de Cecília.
— Tenho medo, disse Magalhães.
— Por quê?
— Sou capaz: de precipitar tudo, e isso não sei se será conveniente antes de conhecer
bem o terreno. Em qualquer caso, não é mau que eu vá examinar por mim mesmo as
coisas. Irei quando quiseres.
— Amanhã?
— Seja amanhã.
No dia seguinte, Oliveira apresentou Magalhães em casa do comendador Vasconcelos.
— É o meu melhor amigo, disse Oliveira.
Na casa de Vasconcelos, já estimavam o advogado; esta apresentação bastava para
recomendar Magalhães.
V
O comendador Vasconcelos era um velho folgazão. Estouvado na mocidade, não o era
menos na velhice. O estouvamento na velhice é, por via de regra, um senão; todavia, o
estouvamento de Vasconcelos tinha um toque peculiar, um caráter todo seu, por modo
que era impossível compreender aquele velho sem aquele estouvamento.
Contava já seus cinqüenta e oito anos, e andaria lépido como um rapaz de vinte anos, se
não fosse uma volumosa barriga que, desde os quarenta anos, lhe começara a crescer
com grave desdouro das suas graças físicas, que as tinha, e sem as quais era duvidoso
que a sra. D. Mariana houvesse casado com ele.
D. Mariana, antes de casar, professava um princípio seu: o casamento é um estado
vitalício; cumpre não precipitar a escolha do noivo. Pelo que, rejeitou três pretendentes
que, apesar de suas boas qualidades, tinham um defeito físico importante: não eram
bonitos. Vasconcelos alcançou o seu Austerlitz onde os outros haviam achado Waterloo.
Salvante a barriga, Vasconcelos era ainda um belo velho, uma ruína magnífica. Não tinha
paixões políticas: votara alternadamente com os conservadores e os liberais para
contentar os amigos que tinha em ambos os partidos. Conciliava as opiniões sem arriscar
as amizades.
Quando a acusavam deste ceticismo político, respondia com uma frase que, se não
discriminava as suas opiniões, abonava o seu patriotismo:
— Somos todos brasileiros.
Quadrava o gênio de Magalhães com o de Vasconcelos. A intimidade não tardou muito.
Já sabemos que o amigo de Oliveira tinha a grande qualidade de se fazer querido com
pouco trabalho. Vasconcelos morria por ele; achava-lhe imensa graça e sólido juízo. D.
Mariana chamava-lhe a alegria da casa; Cecília não tinha mais condescendente
conversador.
Para os fins de Oliveira era excelente.
Não se descuidou Magalhães de sondar o terreno, a ver se podia animar o amigo. Achou
o terreno excelente. Falou uma vez à moça a respeito do amigo e ouviu-lhe palavras de
animadora esperança. Parece-me ser, disse ela, um excelente coração.
— Afirmo que o é, disse Magalhães; conheço-o há muito tempo.
Quando Oliveira soube destas palavras, que não eram muita coisa, ficou muito animado.
— Creio que posso ter esperanças, disse ele.
— Nunca te disse outra coisa, respondeu Magalhães.
Magalhães nem sempre podia servir aos interesses do amigo, porque Vasconcelos, a
quem caíra em graça, confiscava-o horas inteiras, ou palestrando, ou jogando o gamão.
Um dia, Oliveira perguntou ao amigo se era conveniente arriscar uma carta.
— Ainda não, deixa-me preparar a coisa.
Oliveira acedeu.
A quem ler estas páginas muito por alto, parecerá inverossímil da parte de Oliveira
semelhante necessidade de um cicerone.
Não é.
Oliveira nenhuma demonstração dera até ali à moça, que se conservava ignorante do que
se passava dentro dele; e se assim praticava, era por um excesso de timidez, fruto de
suas proezas com mulheres de outra classe.
Nada intimida mais a um conquistador de mulheres fáceis do que a ignorância e a
inocência de uma donzela de dezessete anos.
Acresce que, se Magalhães era de opinião que ele não se demorasse em expor os seus
sentimentos, já agora pensava que era melhor não arriscar golpe sem certeza do
resultado.
A dedicação de Magalhães também parecerá condescendente aos espíritos severos. Mas
a que se não expõe a verdadeira amizade?
Na primeira ocasião que se lhe deparou, tratou Magalhães de perscrutar o coração da
moça.
Era de noite; havia gente em casa. 0liveira estava ausente. Magalhães conversava com
Cecília a respeito de um chapéu com que uma senhora idosa entrara na sala.
Magalhães fazia a respeito do chapéu mil conjecturas burlescas.
— Aquele chapéu, dizia ele, parece-me um ressuscitado. Houve naturalmente alguma
epidemia de chapéus em que morreu aquele, acompanhado de outros seus irmãos.
Aquele ressuscitou, para vir dizer a este mundo o que é o paraíso dos chapéus.
Cecília reprimia uma risada.
Magalhães continuava:
— Eu, se fosse aquele chapéu, pedia uma pensão como inválido e como raridade.
Isto era mais burlesco que picante, mais estúrdio que engraçado; todavia, fazia rir Cecília.
Repentinamente, Magalhães ficou sério e consultou o relógio.
— Já se vai embora? perguntou a moça.
— Não, senhora, disse Magalhães.
— Guarde então o relógio.
— Admira-me que Oliveira ainda não viesse.
— Virá mais tarde. Os senhores são muito amigos?
— Muito. Conhecemo-nos desde crianças. É uma bela alma.
Houve um silêncio.
Magalhães cravou os olhos na moça, que olhava para o chão, e disse:
— Feliz aquela que o possuir.
A moça não revelou a menor impressão ao ouvir estas palavras de Magalhães. Ele
repetiu a frase, e ela perguntou se não seriam horas de tomar chá.
— Já amou, D. Cecília? perguntou Magalhães.
— Que pergunta é essa?
— É uma curiosidade.
— Nunca amei.
— Por quê?
— Sou muito criança.
— Criança!
Outro silêncio.
— Conheço alguém que a ama muito.
Cecília estremeceu e ficou muito corada; não respondeu nem se levantou. Para sair,
porém, da situação em que as palavras de Magalhães a deixara, disse rindo:
— Essa pessoa... quem é?
— Quer saber o nome?
— Quero. É seu amigo?
— É.
— Diga o nome.
Outro silêncio.
— Promete não ficar zangada comigo?
— Prometo.
— Sou eu.
Cecília esperava ouvir outra coisa; esperava ouvir o nome de Oliveira. Qualquer que fosse
a sua inocência, havia percebido naqueles últimos dias que o rapaz tinha queda por ela.
Da parte de Magalhães, não esperava semelhante declaração; todavia, o seu espanto
não foi de cólera, apenas surpresa.
A verdade é que ela não amava nenhum deles.
Não tendo a moça respondido logo, Magalhães disse com um sorriso benévolo:
— Já sei que ama outro.
— Que outro?
— Oliveira.
— Não.
Era a primeira vez que Magalhães apresentava um aspecto grave; penalizada com a idéia
de que lhe houvesse com o silêncio causado alguma tristeza, que ela adivinhava, posto
que não sentisse, Cecília disse ao fim de alguns minutos:
— O senhor está brincando comigo?
— Brincando! disse Magalhães. Tudo quanto quiser, menos isso; não se brinca com o
amor ou o sofrimento. Já lhe disse que a amo; responda-me francamente se posso nutrir
alguma esperança.
A moça não respondia.
— Não poderei viver ao pé da senhora sem uma esperança, embora remota.
O papá é quem decide de mim, disse ela desviando a conversa.
— Pensa que eu sou desses corações que se contentam com o consentimento paterno?
O que eu desejo possuir primeiro é o seu coração. Diga-me: posso esperar essa fortuna?
— Talvez, murmurou a menina, levantando-se envergonhada dessa singela palavra.
VI
Era a primeira declaração que Cecília ouvia da boca de um homem. Não estava
preparada para ela. Tudo o que ouvira lhe causara um inexplicável alvoroço.
Posto que não amasse nenhum dos dois, apreciava ambos os rapazes, e não seria difícil
que cedesse ao pedido de um deles e viesse a amá-lo apaixonadamente.
Dos dois rapazes, o que mais depressa conseguiria vencer, dado o caso que se
declarassem ao mesmo tempo, era sem dúvida Magalhães, cujo espírito galhofeiro e
presença insinuante deviam influir mais no espírito da moça.
Minutos depois da cena narrada no capítulo anterior, já os olhos de Cecília procuravam os
de Magalhães, mas rapidamente, sem se demorar neles; todos os sintomas de um
coração que não se demorará em ceder.
Magalhães tinha a vantagem de conservar todo o sangue frio no meio da situação que se
lhe apresentava, e isso era excelente para não descobrir aos olhos estranhos o segredo
que ele tinha interesse em conservar.
Pouco depois, entrou Oliveira. Magalhães deu-se pressa em o chamar de parte.
— Que há? perguntou Oliveira.
— Boas notícias.
— Falaste-lhe?
— Positivamente não; mas encaminhei o negócio de maneira que talvez em poucos dias
tenha a tua situação mudado completamente.
— Mas que houve?
— Falei-lhe de amores; ela pareceu indiferente a essas idéias; disse-lhe então gracejando
que a amava...
— Tu?
— Sim. De que te admiras?
— E que disse ela?
— Riu-se. Então perguntei-lhe velhacamente se amava alguém. E ela a isto respondeu
que não, mas por modo que me parecia uma afirmativa. Deixa o caso por minha conta.
Amanhã, desfaço a meada; digo-lhe que eu estava brincando... Mas paremos aqui, que aí
vem o comendador.
Efetivamente, Vasconcelos chegara à janela onde os dois estavam. Uma das manias de
Vasconcelos era comentar durante o dia todas as notícias que os jornais publicavam de
manhã. Os jornais daquele dia falavam de um casal encontrado morto num quarto da
casa em que residia. Vasconcelos desejava saber se os dois amigos optavam pelo
suicídio, circunstância esta que o levaria a adotar a hipótese do assassínio.
Foi esta conversa uma completa diversão ao assunto amoroso, e Magalhães aproveitou o
debate entre Oliveira e Vasconcelos para ir conversar com Cecília.
Falaram de coisas indiferentes, mas Cecília estava menos expansiva; Magalhães supôs a
princípio que fosse um sintoma de esquivança; não era. Bem o notou ele quando, ao sair,
Cecília correspondeu energicamente ao seu apertado aperto de mão.
— Pensas que serei feliz, Magalhães? perguntou Oliveira apenas se acharam na rua.
— Penso.
— Não imaginas que dia passei hoje.
— Não hei de imaginar!
— Olha, nunca pensei que esta paixão pudesse dominar tanto a minha vida.
Magalhães animou o rapaz, que o convidou a cear, não porque o amor lhe deixasse largo
campo às exigências do estômago, senão porque havia jantado pouco.
Eu peço perdão aos meus leitores, se entro nestas explicações a respeito da comida.
Quer-se um herói romântico, acima das necessidades vulgares da vida humana; mas não
posso deixar de as mencionar, não por sistema, mas por ser fiel à história que estou
contando.
A ceia foi alegre, porque Magalhães e a tristeza eram incompatíveis. Oliveira, apesar de
tudo, comeu pouco, Magalhães largamente. Entendia que lhe cumpria pagar a ceia; mas
o amigo não consentiu nisso.
— Olha, Magalhães, disse Oliveira ao despedir-se dele. A minha felicidade está nas tuas
mãos; és capaz de dar conta dela?
— Não se devem prometer coisas tais; o que eu te afirmo é que não pouparei esforços.
— E pensas que serei feliz?
— Quantas vezes queres que to diga?
— Adeus.
— Adeus.
No dia seguinte, Oliveira mandou dizer a Magalhães que estava um pouco incomodado.
Magalhães foi visitá-lo.
Achou-o de cama.
— Estou com alguma febre, disse o advogado; dize isto mesmo ao comendador, a quem
eu prometi de ir lá hoje.
Magalhães cumpriu o pedido.
Era a ocasião de se manifestar a dedicação de Magalhães. Não faltou este moço a tão
sagrado dever. Passava com Oliveira a tarde e as noites e só se separava dele para ir, às
vezes, à casa de Vasconcelos, que era isso mesmo o que Oliveira lhe pedia.
— Fala-lhe sempre de mim, dizia Oliveira.
— Não faço outra coisa.
E assim era. Magalhães não cessava de dizer que vinha ou ia para casa de Oliveira, cuja
doença ia tomando um aspecto grave.
— Que amigo! murmurava consigo D. Mariana.
— O senhor é um bom coração, dizia Vasconcelos apertando as mãos de Magalhães.
— O sr. Oliveira deve querer-lhe muito, dizia Cecília.
— Como a um irmão.
A doença de Oliveira era grave; durante todo o tempo que durou, não se desmentiu nunca
a dedicação de Magalhães.
Oliveira admirava-o. Via que o benefício que lhe fizera não caíra em má terra. Grande foi
a sua alegria quando, ao começar a convalescença, Magalhães lhe pediu duzentos milréis,
com promessa de os pagar no fim do mês.
— Quanto quiseres, meu amigo. Tira-os ali da secretária.
— Acredita que isto me vexa imensamente, disse Magalhães, metendo na algibeira duas
notas de cem mil-réis. Nunca te pedi dinheiro; agora, menos que nunca, devia pedir-to.
Oliveira compreendeu o pensamento do amigo.
— Não sejas tolo; a nossa bolsa é comum.
— Oxalá que esse belo princípio possa ser realizado literalmente, disse Magalhães rindo.
Oliveira não lhe falou nesse dia a respeito de Cecília. Foi o próprio Magalhães que
encetou a respeito dela uma conversa.
— Queres ouvir uma coisa? disse ele. Apenas saíres, manda-lhe uma carta.
— Por quê? Crês que...
— Creio que é a hora do golpe.
— Só para a semana poderei sair.
— Não importa, virá a tempo.
Para compreender bem a situação singular em que se achavam estes personagens todos,
é mister transcrever aqui as palavras com que nessa mesma noite se despediram
Magalhães e Cecília à janela da casa desta:
— Até amanhã, disse Magalhães.
— Virás cedo?
— Venho às 8 horas.
— Não faltes.
— Queres que te jure?
— Não precisa; adeus.
VII
Quando entrou a semana seguinte, já na véspera do dia em que Oliveira se dispunha a
sair e visitar o comendador, recebeu uma carta de Magalhães.
Leu-a com pasmo:
Meu querido amigo, dizia Magalhães; desde ontem tenho a cabeça fora de mim.
Aconteceu-me a maior desgraça que podia cair sobre nós. Com mágoa e vergonha to
anuncio, meu prezadíssimo amigo, a quem tanto devo.
Prepara o teu coração para receber o golpe que já me feriu, e por muito que ele te faça
sofrer, não sofrerás mais do que eu já sofri...
Saltaram duas lágrimas dos olhos de Oliveira.
Adivinhava mais ou menos o que seria. Cobrou forças e continuou a leitura:
Descobri, meu querido amigo, que Cecília (como direi?), que Cecília me ama! Não
imaginas como me fulminou esta notícia. Que ela não te amasse, como ambos
desejávamos, era já doloroso; mas que se lembrasse de consagrar os seus afetos ao
último homem que ousaria opor-se ao seu coração, é uma ironia da fatalidade. Não te
contarei meu procedimento; facilmente o adivinharás. Prometi não voltar lá mais.
Queria ir eu mesmo comunicar-te isto; mas não ouso contemplar a tua dor, nem te quero
dar o espetáculo da minha.
Adeus, Oliveira. Se a fatalidade ainda consentir que nos vejamos (impossível!), até um
dia; se não... Adeus!
Adivinha o leitor o golpe que esta carta descarregou no coração de Oliveira. Mas é nas
grandes crises que o espírito do homem se mostra grande. A dor do apaixonado superada
pela dor do amigo. O final da carta de Magalhães aludia vagamente a um suicídio;
Oliveira deu-se pressa em ir impedir esse ato de nobre abnegação. Demais, que coração
tinha ele, a quem confiasse todos os seus desesperos?
Vestiu-se apressadamente e correu à casa de Magalhães.
Disseram-lhe que não estava em casa.
Oliveira ia subindo:
— Perdão, disse o criado; eu tenho ordem de não deixar subir ninguém.
— Razão demais para eu subir, respondeu Oliveira, afastando o criado.
— Mas...
— Trata-se de uma grande desgraça!
E subiu apressadamente a escada.
Na sala, não havia ninguém. Oliveira entrou afoitamente no gabinete. Achou Magalhães
sentado à secretária inutilizando alguns papéis.
Perto dele, havia um copo com um líquido vermelho.
— Oliveira! exclamou ele, quando o viu entrar.
— Sim, Oliveira, que vem salvar a tua vida, e dizer-te quanto és grande!
— Salvar-me a vida? murmurou Magalhães; quem te disse que eu?...
— Tu, na tua carta, respondeu Oliveira. Veneno! continuou ele, vendo o copo. Oh! nunca!
E despejou o copo na escarradeira.
Magalhães parecia atônito.
— Eia! disse Oliveira; dá cá um abraço! Este amor infeliz foi ainda um lance de felicidade,
porque conheci bem que coração de ouro é esse que te bate no peito.
Magalhães estava de pé; caíram nos braços um do outro. O abraço comoveu Oliveira,
que só então deu largas à sua dor. O amigo consolou-o como pôde.
— Bem, disse Oliveira, tu que foste causa indireta da minha desgraça, deves ser agora o
remédio que me há de curar. Sê eternamente meu amigo.
Magalhães suspirou.
— Eternamente! disse ele.
— Sim.
— Minha vida é curta, Oliveira; eu devo morrer; se não for hoje, sê-lo-á amanhã.
— Mas isso é uma loucura.
— Não é: eu não te disse tudo na carta. Falei-te do amor que Cecília me tem; não te falei
do amor que lhe tenho eu, amor que me nasceu sem eu pensar. Brinquei com fogo;
queimei-me.
Oliveira curvou a cabeça.
Houve um longo silêncio entre os dois amigos.
Ao cabo de um longo quarto de hora, Oliveira ergueu os olhos vermelhos de lágrimas e
disse a Magalhães, estendendo-lhe a mão:
— Sê feliz, que o mereces; não tens culpa disto. Procedeste honradamente; compreendo
que era difícil estar ao pé dela sem sentir o fogo da paixão. Casa com Cecília, pois que se
amam, e fica certo de que serei sempre o mesmo amigo.
— Oh! tu és imenso!
Magalhães não ajuntou nenhum substantivo a este adjetivo. Não nos é dado perscrutar o
seu pensamento interior. Caíram os dois amigos nos braços um do outro com grandes
exclamações e protestos.
Uma hora depois de ali haver entrado, saía Oliveira triste mas consolado.
— Perdi um amor, dizia ele consigo, mas ganhei um verdadeiro amigo, que já o era antes.
Magalhães veio logo atrás dele.
— Oliveira, disse ele, passaremos o dia juntos; receio que faças alguma loucura.
— Não! o que me ampara nesta queda és tu.
— Não importa; passaremos o dia juntos.
Assim aconteceu.
Neste dia, não foi Magalhães à casa do comendador.
No dia seguinte, apenas lá apareceu, disse-lhe Cecília:
— Estou zangada contigo; por que não vieste ontem?
— Tive de sair da cidade em serviço público e por lá fiquei a noite.
— Como passaste?
— Bem.
Seis semanas depois uniam eles os seus destinos. Oliveira não compareceu à festa com
grande admiração de Vasconcelos e de D. Mariana, que não compreendiam essa
indiferença da parte de um amigo.
Nunca houve a menor sombra de dúvida entre Magalhães e Oliveira.
Foram amigos até à morte, posto que Oliveira não freqüentasse a casa de Magalhães.

Outras obras do autor:
A carteira
A cartomante
A causa secreta
A chave
A chinela turca
Adao e eva
A desejada das gentes
A Igreja do diabo
A Inglezinha Barcelos


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domingo, 16 de março de 2008

A Inglezinha Barcelos

Para mais obras: use a chave de busca, canto superior esquerdo do blog.
Categoria: Obras Completas
Autor: Machado de Assis

CASA DAS RAIZES
Eram trintonas. Cândida era casada, Joaninha solteira. Antes deste dia de março de
1886, viram-se pela primeira vez em 1874, em casa de uma professora de piano. Quase
iguais de feições, que eram miúdas, meãs de estatura, ambas claras, ambas alegres,
havia entre elas a diferença dos olhos; os de Cândida eram pretos, os de Joaninha azuis.
Esta cor era o encanto da mãe de Joaninha, viúva do capitão Barcelos, que lhe chamava
por isso “. — Como vai a sua inglesa? perguntavam-lhe as pessoas que a queriam
lisonjear. E a boa senhora ria-se d’água, Joaninha não viu morte física nem moral; não
achou meio de fugir a este mundo, e contentou-se com ele. Da crise, porém, nasceu uma
situação moral nova. Joaninha conformou-se com o celibato, abriu mão de esperanças
inúteis, compreendeu que estragara a vida por suas próprias mãos.
— Acabou-se a inglesinha Barcelos, disse consigo, resoluta.
E de fato, a transformação foi completa. Joaninha recolheu-se a si mesma e não quis
saber de namoros. Tal foi a mudança que a própria mãe deu por ela, ao cabo de alguns
meses. Supôs que ninguém já aparecia; mas em breve reparou que ela própria não saía à
porta do castelo para ver se vinha alguém. Ficou triste, o desejo de vê-la casada não
chegaria a cumprir-se. Não viu remédio próximo nem remoto; era viver e morrer, e deixála
neste mundo, entregue aos lances da fortuna.
Ninguém mais falou na inglesinha Barcelos. A namoradeira passou de moda. Alguns
rapazes ainda lhe deitavam os olhos; a figura da moça não perdera a graça dos
dezessete anos, mas nem passava disso, nem ela os animava a mais. Joaninha fez-se
devota. Começou a ir à igreja mais vezes que dantes; à missa ou só orar. A mãe não lhe
negava nada.
— Talvez pense em pegar-se com Deus, dizia ela consigo; há de ser alguma promessa.
Foi por esse tempo que lhe apareceu um namorado, o único que verdadeiramente a
amou, e queria desposá-la; mas tal foi a sorte da moça, ou o seu desazo, que não chegou
a falar-lhe nunca. Era um guarda-livros, Arsênio Caldas, que a encontrou uma vez na
igreja de S. Francisco de Paula, onde fora ouvir uma missa de sétimo dia. Joaninha
estava apenas orando. Caldas viu-a ir de altar em altar, ajoelhando-se diante de cada um,
e achou-lhe um ar de tristeza que lhe entrou na alma. Os guarda-livros, geralmente, não
são romanescos, mas este Caldas era-o, tinha até composto, entre dezesseis e vinte
anos, quando era simples ajudante de escrita, alguns versos tristes e lacrimosos, e um
breve poema sobre a origem da lua. A lua era uma concha, que perdera a pérola, e todos
os meses abria-se toda para receber a pérola; mas a pérola não vinha, porque Deus, que
a achara linda, tinha feito dela uma lágrima. Que lágrima? A que ela verteu um dia, por
não vê-lo a ele. Que ele e que ela? Ninguém; uma dessas paixões vagas, que atravessam
a adolescência, como ensaios de outras mais fixas e concretas. A concepção, entretanto,
dava idéia da alma do rapaz, e a imaginação, se não extraordinária, mal se podia crer que
viçasse entre o diário e a razão.
Com efeito, este Caldas era sentimental. Não era bonito, nem feio, não tinha expressão.
Sem relações, tímido, vivia com os livros durante o dia, e à noite ia ao teatro ou a algum
bilhar ou botequim. Via passar mulheres; no teatro, não deixava de as esperar no saguão;
depois ia tomar chá, dormia e sonhava com elas. Às vezes, tentava algum soneto,
celebrando os braços de uma, os olhos de outra, chamando-lhes nomes bonitos, deusas,
rainhas, anjos, santas, mas ficava nisso.
Contava trinta e um anos, quando sucedeu ver a inglesinha Barcelos na igreja de S.
Francisco. Talvez não fizesse nada, se não fosse a circunstância já dita de vê-la rezar a
todos os altares. Imaginou logo, não devoção nem promessa, mas uma alma
desesperada e solitária. A situação moral, se tal era, parecia-se com a dele; não foi
preciso mais para que se inclinasse à moça, e a acompanhasse até Catumbi. A visão
tornou com ele, sentou-se à escrivaninha, aninhou-se entre o deve e o há de haver, como
uma rosa caída em moita de ervas bravias. Não é minha esta comparação; é do próprio
Caldas, que nessa mesma noite tentou um soneto. A inspiração não acudiu ao chamado,
mas a imagem da moça de Catumbi dormiu com ele e acordou com ele.
Daí em diante, o pobre Caldas freqüentou o bairro. Ia e vinha, passava muitas vezes,
espreitava a hora em que pudesse ver Joaninha, às tardes. Joaninha aparecia à janela;
mas, além de não ser já tão assídua como antes, era voluntariamente alheia à menor
sombra de homem. Não fitava nenhum; não dava sequer um desses olhares que não
custam nada e não deixam nada. Fizera-se uma espécie de freira leiga.
— Creio que ela hoje me viu, pensava consigo o guarda-livros, uma tarde, em que ele,
como de uso, passara por baixo das janelas, levantando muito a cabeça.
A verdade é que ela tinha os olhos na erva que crescia à beira da calçada, e o Caldas,
que ia passando, naturalmente entrou no campo da visão da moça; mas tão depressa ela
o viu, levantou os olhos e estendeu-os à chaminé da casa fronteira. Caldas, porém,
edificou sobre essa probabilidade um mundo de esperanças. Casariam talvez naquele
mesmo ano. Não, ainda não; faltavam-lhe meios. Um ano depois. Até lá dar-lhe-iam
interesse na casa. A casa era boa e próspera. Vieram cálculos de lucro. A contabilidade
deu o braço à imaginação, e disseram muitas coisas bonitas uma à outra; algarismos e
suspiros trabalharam em comum, tais como se fossem do mesmo oficio.
Mas o olhar não se repetiu naqueles dias próximos, e o desespero entrou na alma do
guarda-livros.
A situação moral deste agravou-se. Os versos entraram a cair entre as contas, e os
dinheiros entrados nos livros da casa mais pareciam sonetos que dinheiro. Não é que o
guarda-livros os escriturasse em verso; mas alternava as inspirações com os
lançamentos, e o patrão, um dia, foi achar entre duas páginas de um livro um soneto
imitado de Bocage. O patrão não conhecia esse poeta nem outro, mas conhecia versos e
sabia muito bem que não havia entre os seus devedores nenhum
Lírio do céu, lírio caído em terra.
Perdoou o caso, mas entrou a observar o empregado. Este, por sua desgraça, ia de mal a
pior. Um dia, quando menos esperava, disse-lhe o patrão que procurasse outra casa. Não
lhe deu razões; o pobre-diabo, aliás tímido, tinha certo orgulho que lhe não permitiu ficar
mais tempo e saiu logo.
Não há mau poeta, nem guarda-livros relaxado que não possa amar deveras; nem ruins
versos tiraram jamais a sinceridade de um sentimento ou o fizeram menos forte. A paixão
deste pobre moço desculpará os seus desazos comerciais e poéticos. Ela o levou por
descaminhos inesperados; fê-lo passar crises tristíssimas. Tarde achou um mau emprego.
A necessidade fê-lo menos assíduo em Catumbi. Os empréstimos eram poucos e
escassos; por muito que ele cortasse a comida (morava com um amigo, por favor), não
lhe davam sempre para os colarinhos imaculados, nem as calças são eternas. Mas essas
ausências longas não tiveram o condão de abafar ou atenuar um sentimento que, por
outro lado, não era alimentado pela moça; novo emprego melhorou um tanto a situação
do namorado. Voltou a ir lá mais vezes. Era fim do verão, as tardes tendiam a diminuir, e
pouco tempo lhe restaria delas para dar um pulo a Catumbi. Com o inverno cessaram os
passeios; Caldas desforrava-se aos domingos.
Não me pergunteis se tentou escrever a Joaninha; tentou, mas as cartas ficavam-lhe na
algibeira; eram depois reduzidas a verso, para suprir as lacunas da inspiração. Recorreu
aos bilhetes misteriosos, nos jornais, com alusões à moça de Catumbi, marcando dia e
hora em que ela o veria passar. Joaninha parece que não lia jornais, ou não dava com os
bilhetes. Um dia, por acaso, sucedeu achá-la à janela. Sucedeu também que ela
sustentasse o olhar dele. Eram velhos costumes, jeitos de outro tempo, que os olhos não
haviam perdido; a verdade é que ela não o viu. A ilusão, porém, foi imensa, e o pobre
Caldas achou naquele movimento inconsciente da moça uma adesão, um convite, um
perdão, quando menos, e do perdão à cumplicidade bem podia não ir mais que um passo.
Assim correram dias e dias, semanas e semanas. No fim do ano, Caldas achou a porta
fechada. Cuidou que ela se houvesse mudado e indagou pela vizinhança. Soube que não;
uma pessoa de amizade ou ainda parenta, levara a família para um sítio no interior.
— Por muito tempo?
— Foram passar o verão.
Caldas esperou que o verão acabasse. O verão não andou mais depressa que de
costume; quando começou o outono, Caldas foi um dia ao bairro e achou a porta aberta.
Não viu a moça, e achou esquisito que não regressava de lá, como antes, comido de
desespero. Pôde ir ao teatro, pôde ir cear. Entrando em casa, recapitulou os longos
meses de paixão não correspondida, pensou nas fomes passadas para poder atar uma
gravata nova, chegou a recordar alguma coisa parecida com lágrimas. Foram porventura
os seus melhores versos. Vexou-se desses, como já se vexara dos outros. Quis voltar a
Catumbi, no domingo próximo, mas a história não guardou a causa que impediu esse
projeto. Só guardou que ele tornou a ir ao teatro e a cear.
Um mês depois, como passasse pela Rua da Quitanda, viu paradas duas senhoras,
diante de uma loja de fazendas. Era a inglesinha Barcelos e a mãe. Caldas chegou a
parar um pouco adiante; não sentiu o alvoroço antigo, mas gostou de vê-la. Joaninha e a
mãe entraram na loja; ele passou pela porta, olhou sem parar e foi adiante. Tinha de estar
na praça às duas horas e faltavam cinco minutos. Joaninha não suspeitou sequer que ali
passara o único homem a quem não correspondeu, e o único que verdadeiramente a
amou.

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A Igreja do Diabo


CAPÍTULO I
DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

CASA DAS RAIZES


Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia
de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes,
sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem
organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer,
dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada
regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de
combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário
contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas,
bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo
universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as
outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei
diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de
negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto
magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe
a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos.
Acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:
— Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou
todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

CAPÍTULO II

ENTRE DEUS E O DIABO
casa das raizes
Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que
engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à
entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo,
mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro
esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e
alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios
de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco.
Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do
preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar
uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e
adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto,
com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos
parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o
aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre
vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra
fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há
tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no
espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer cousa que, nesse
breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o
riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é
que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo
manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las
por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda
pura...
— Velho retórico! murmurou o Senhor.
— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do
mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os
lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção
entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos,
— com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente
espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias
necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miúdas;
não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões,
carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios
mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel
fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua
espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos
moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para
renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas
legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo
ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que
se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na
eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de
algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida
aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e subtil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama
todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai!
vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe
silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus
cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como
um raio, caiu na terra.

CAPÍTULO III

A BOA NOVA AOS HOMENS
casa das raizes
Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a
cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova
e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia
aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais
íntimos.
Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os
homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas
beatas.
— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos
soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da
natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens.
Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele
nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos
darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os
indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si.
E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A
doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à
substância, porque, acerca da forma, era umas vezes subtil, outras cínica e
deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que
eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e
assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia,
com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a
melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a
Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula,
que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope;
virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas
ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões
de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude,
quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em
grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o
Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do
Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das
mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude
principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir
todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes
golpes de eloqüência, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção delas,
fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude.
Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía:
muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem
canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a
todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e
profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era
um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito
superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o
teu chapéu, cousas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo
caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua
palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua própria
consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois
não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte
do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos,
partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do
homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as
vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do
preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que
era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer
duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que
combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não
proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição,
ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma
expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum
salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito
foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro
social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma
exceção foi logo eliminada. pela consideração de que o interesse, convertendo o
respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à
nova instituição. Ele mostrou que essa regra era urna simples invenção de parasitas
e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em
alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a
noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele
fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve
a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao
próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie
de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do
indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação,
por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um
apólogo:
— Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas
cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece
aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

CAPÍTULO IV

FRANJAS E FRANJAS
casa das raizes
A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo
acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às
urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o
tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não
havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse,
uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia. porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis,
às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem
integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões
recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias
de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal
povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os
fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o
mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o
mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de
um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com
o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito
ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à
entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali
roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo
de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita
muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou
completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calavrês, varão de
cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na
campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava
a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só
não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a
amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela
solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas,
benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer
tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu te mpo de refletir, comparar
e concluir do espetáculo presente alguma cousa análoga ao passado. Voou de novo
ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular
fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o
repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e
disse:
— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas
de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão.
— Que queres tu? É a eterna contradição humana.
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